Viva a Graça!!

Edgar Donato  »   outubro 2021

“Tenho passado a maior parte da minha vida recuperando-me daquilo que a Igreja me fez. ”

Logo no início da leitura de Alma Sobrevivente, surpreendi-me com as palavras acima. E à medida que avançava, percebia o drama do autor. Existem igrejas que traumatizam as pessoas, sufocam-nas com as suas manias e esquizofrenias. Por incrível que pareça, alguém depois de libertado do domínio dos seus pecados, acaba se tornando presa de uma estrutura eclesiástica que amordaça, impede de pensar e ao invés de um ensino libertador, acrescenta peso às costas do sincero adorador.  Foi o que aconteceu com Philip Yancey.

Quais seriam algumas idiossincrasias modernas? Campanhas com um certo número de dias para se obter cura, prosperidade e emprego. Algumas comunidades são exigentes quanto a questão da alimentação, normatizam sobre a guarda de determinados dias e rituais. Certamente tem pessoas tomando café e sentindo-se culpadas. Outras padronizam o estilo de roupas para homens, mulheres e até para os clérigos, estabelecem uma liturgia formal, não se pode sorrir, bater palmas, o culto é muito mecânico, previsível. O brasileiro por natureza é alegre e descontraído. O cristão que deveria celebrar o seu Salvador, pode ser amordaçado quanto à sua alegria natural e espiritual. Proíbe-se a variedade dos instrumentos musicais, proíbem-se músicas contemporâneas (é verdade que existem canções pobres em teologia e com apelos sensoriais afrontosos), contudo, existem poetas em nossa geração tão bons quanto existiam no século XIX, época dos hinos do Cantor Cristão). Deveríamos ter a visão de orquestra e não simplesmente a visão miopia na – aliás piano era instrumento inexistente nas páginas do Antigo e do Novo Testamento.

Já aconselhei desviados da fé porque os pais eram rígidos demais; espancavam, ao invés de disciplinarem adequadamente; ou proibiam por proibir; não ensinavam a pensar; inexistia o diálogo ou possuíam uma visão farisaica da vida.

O tema da Graça fascina-me, arrebata-me, impulsiona-me porque a maneira como João retrata a entrada de Jesus no cenário humano é magistral: E vimos a sua glória como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. Este ponto é indiscutível: Jesus não veio cheio de Leis e de verdade, Ele veio cheio de graça e de verdade. Os legalistas com sua lista inflexível de “faça”, “não faça” matam o espírito de alegria e espontaneidade daqueles que deseja desfrutar da verdadeira liberdade.

É necessário distinguir dois tipos de legalistas. Primeiro; conforme o livro de Gálatas, os judaizantes; tais “cristãos” acreditavam que não era suficiente crer em Jesus. Para eles, os gentios deveriam guardar a Lei de Moisés, a circuncisão, o sábado e outros costumes. Segundo; o legalismo tornou-se sinônimo de farisaísmo. Pessoas muito rígidas, controladoras, fiscalizadoras da vida cristã alheia. Querem impor as suas preferências sobre as outras pessoas. Não conseguem perceber as lacunas nas Escrituras. Para tais pessoas tudo é preto ou branco, é oito ou oitenta. Não entendem que a Bíblia deixa áreas cinzentas, situações não prescritas, não proibitivas, pois estão na esfera das opções.

Agostinho já dizia: nas coisas essenciais, unidade, nas coisas secundárias, liberdade; em todas as coisas, amor.

Infelizmente falta unidade para a Igreja do Senhor. Se a perspectiva de Corpo de Cristo atuante no mundo agregasse, teríamos muito avanço na obra missionária e a sociedade seria tremendamente contagiada com os valores do Reino. Teríamos mais igrejas locais e muito impacto no mundo muçulmano. Recentemente li um artigo de Robinson Cavalcanti onde ele afirma: Um obstáculo ao cumprimento da Grande Comissão foi a lamentável, desordenada e pecaminosa fragmentação denominacionalista do cristianismo no século passado. Hoje vivemos o escândalo das 30.000 denominações, e no falso conceito platônico de “unidade espiritual”.

Sou devedor à minha igreja de origem, pois foi lá que conheci o Amado Salvador. Contudo, éramos muito sectários, havia um orgulho denominacional que beirava o preconceito para com outras denominações. Foi justamente num Seminário, conservador, Batista Regular, com o professor Ronaldo Meznar, que comecei a despertar para ver a Igreja com outros olhos. Ele disse certa vez: Deus transcende a placa denominacional.

Os fariseus eram bairristas. Achavam que o mundo girava em torno deles. Consideravam-se superiores aos outros. Eram narcisistas, isolados. E como deram trabalho para o Mestre!  Eram bonitos por fora, mas sepultura por dentro, grande fachada, mente travada e vida emperrada.

Quando não aprofundamos no conhecimento da Palavra e quando não temos discernimento, quando não somos –  conhecedores da época –  nossa visão de mundo fica limitada, preconceituosa, unilateralista, estreita e ignorante. Consequentemente adquirimos mentalidade de gueto e não poderemos servir a nossa própria geração como o fez Davi – Atos 13.36. O perigo continua. Existem denominações carregando o “fermento” dos fariseus. Grupos evangélicos extremistas, agindo como se fossem os únicos, as melhores pessoas do mundo, no entanto são exigentes, rígidos, autoritários, cheios de regras e vazios da Graça.

A pregação da Graça não é autorização para uma vida de “liberou geral”. Concordo plenamente com as palavras de Elben César: Ora a distância entre a graça divina e a libertinagem humana é imensurável…   A graça de Deus parece não ter sinônimo perfeito (nem definição plenamente satisfatória). Mas os sinônimos da libertinagem são licenciosidade, dissolução, devassidão, depravação. Remover a maravilhosa graça do seu pedestal e coloca-la na mesma prateleira da libertinagem é uma violência que precisa ser denunciada em alto e bom som – Ultimato, julho-agosto 2005, p. 24.

Entendo que uma igreja sadia tem disposição para mudanças. Precisamos ter coragem para não sacralizar formas e tradicionalismos. É necessário o discernimento para não misturar essência (a nossa excelente Teologia) com as metodologias. Jamais abriremos mão das verdades: Inerrância e Inspiração das Escrituras, Nascimento Virginal, Morte expiatória, Morte Substitutiva de Jesus, Salvação pelo Graça, o Novo Nascimento, etc… 

O grande desafio da nossa época é alcançar o pecador. Vivemos na era do “saber partilhado” e o pastor, como educador, necessita comunicar adequadamente a mensagem de modo bíblico, criativo, interessante, respondendo às grandes indagações do século XXI.

A Igreja nasceu para causar impacto no mundo. Qualquer igreja saudável terá disposição para mudança. Alguém disse que a Igreja da reforma está sempre em mudança. O formalismo e o tradicionalismo religioso encontram nas igrejas evangélicas um solo fértil para germinarem. Não é à toa que o Dr. Hendricks ao frequentar um desses cultos comentou: O culto foi ótimo, se eu estivesse vivendo na década de 60.

Será que a experiência do Philip Yancey tem se repetido?  Incrível! Após Jesus libertar uma pessoa, como é que a Igreja a coloca dentro de um aquário? Contudo, conhecer o Evangelho é como viver na imensidão do oceano…   O Oceano da Graça de Deus!

Uma resposta para “Viva a Graça!!”

  1. Pr. Joel Azer. disse:

    Sinto muito pastor Nao concordar totalmente com o seu art. aqui em foco. Estou seguindo a Jesus por 54 anos . 0 servi no ministerio pela graça e miseri ordia de Deus por mais de 40 anos. Estou lendo a Biblia pela 55 vez interruptamente. Pastoreei 7 igrejas batistas regulares. Sou conservador na doutrina e em nenhum momento precisei mudar ate o tipo de culto para a Igreja crescer. Pois vc tbm sabe que quem da o crescimento e Deus mediante o nosso trabalho. Admiro muito os seus art. no JApoio. Abço.

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