Uma fé gerada no desespero

Mário Maracaipe  »   dezembro 2021

A fé cristã é essencial ao cristão como o espírito é essencial ao corpo. O corpo não sobrevive sem o espírito e o cristão não sobrevive sem a fé cristã – sem a fé cristã não existe o ser cristão. A fé cristã distingue-se da fé natural no sentido de que esta última existe no ser humano desde o início da sua vida, e o leva a crer na existência de um ser supremo. Mesmo o ateu evidencia em si a fé natural em sua luta inglória contra a própria consciência na insana insistência de “provar” a si mesmo, e a outrem, a inexistência de Deus. A fé cristã, diferentemente da fé natural, passa a existir a partir do ouvir a pregação do Evangelho de Cristo, seguida da confiança em Jesus como Deus e Salvador – este é o cerne e o diferencial da fé cristã. Por conseguinte, no entendimento cristão, o “incrédulo” não é um descrente qualquer, mas é o sujeito que não crê em Jesus Cristo como seu Salvador e único Deus (Ef 2; Tg 2).

Por tudo isso a fé cristã é única, exclusiva e evidente – única, por distinguir-se da fé natural. Exclusiva, por não admitir fé na criatura, mas no Deus que a Bíblia revela. A fé cristã é também evidente por demandar do crente o seu testemunho por palavras e obras pertinentes a ela. Essa tríade da unicidade, exclusividade e visibilidade da fé cristã é testemunhada no trágico naufrágio sofrido por Paulo que afirmou ser aquele desastre uma intervenção divina que objetivava conduzi-lo ao total desespero, a fim de introduzi-lo à essência da fé cristã. As palavras de Paulo “[…] fomos sobremaneira agravados mais do que podíamos suportar, de modo tal que até da vida desesperamos. Mas já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos; ” leva-nos a pensar que Deus teria contemplado naquele cristão um “resquício” da fé pessoal, a fé na criatura, incompatível com a fé cristã. Deus, portanto, levou o apóstolo às barras da morte certa e ao desespero total, para que dali emergisse a fé cristã em toda a beleza de sua exclusividade, através da graciosa intervenção do Deus cristão.  O apóstolo afirmou que, durante o naufrágio, ele perdera a esperança em si e concluíra ser tal provação insuportável. Entrementes, ao sobreviver ao fatal naufrágio, Paulo compartilha a lição que Deus lhe ensinara: o Deus cristão dá tanto a provação quanto o seu livramento. A experiência paulina nos leva à conclusão de que o mais piedoso cristão necessita ser provado para que nele permaneça e cresça a inigualável fé cristã. A ausência da fé cristã dá lugar à fé natural, baseada na criatura corrompida – uma fé tão perniciosa que existe tanto nos humanos sem Cristo quanto nos próprios demônios. 

Jesus livrou Paulo do naufrágio, mas não o poupou da execução romana –  ante a qual o apóstolo perseverou inabalável na fé cristã. É precisamente nesse espírito de fé que o cristão deve perseverar ao enfrentar, por exemplo, a atual pandemia e suas nefastas consequências. O cristão deveria encarar tal provação tanto como uma possível sentença de morte, quanto como uma necessária provação enviada pelo Deus cristão para que analisemos se a fé que há em nós é a fé na vã criatura ou a fé no poderoso Deus cristão, Jesus Cristo, pelo qual alcançamos livramento, tanto da sentença da morte natural quanto da morte eterna. A morte natural não tememos, pois, a fé cristã nos garante vitória por Jesus Cristo, o qual, mesmo na morte, nos conduz ao seu Reino eterno. Tememos menos ainda a morte eterna, pois a fé cristã baseia-se no Cristo morto e ressurreto o qual nos agracia com o perdão e a vida eterna na presença do Único e Verdadeiro Deus Cristão. Como cristão, devemos temer, não a morte, mas temer sim, que nossa preciosa fé cristã se corrompa em fé natural. Oremos a Deus, não simplesmente pelo livramento do mal, mas pela necessária perseverança na fé cristã até o fim! (2 Tm 4; 1 Co 15).

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