“Por todo o mundo… a toda criatura”

Carlos Moraes  »   Editorial | janeiro 2022

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15)

A ordem de Jesus aos seus discípulos, logo no início da Igreja, no ano 30 d.C., não poderia ter sido mais clara e objetiva. Marcos é o texto mais antigo dos quatro evangelhos, escrito por volta do ano 70. Portanto, fazia 40 anos, aproximadamente, que a igreja pregava o evangelho quando ele transcreveu essas palavras de Jesus: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc16.15).

Foi por volta do ano 35 que aconteceu a dispersão dos cristãos devido à primeira perseguição. No ano 70, a mensagem já estava bem espalhada, através das viagens missionárias de Paulo, de acordo com o livro de Atos. Muitas igrejas locais haviam sido plantadas em toda Ásia e o Império Romano já conhecia a força da ação do Espírito Santo através daqueles que faziam parte do corpo de Cristo.

Nestes dois milênios de vida da Igreja, o epicentro do evangelho tem sofrido mudanças devido às mais variadas causas, mas nunca deixou de avançar. Os cristãos continuam acreditando que o campo é o mundo e que toda criatura precisa ser alcançada pela mensagem do evangelho. A estrutura e a forma de cumprir a missão sofre variações, mas não para.

Os ministérios transculturais visando levar o evangelho a outras línguas e culturas, para plantar igrejas autônomas, que se autogovernem, autosustentem e autopropaguem, nem sempre são bem-sucedidos. Há casos que, devido à falta de preparo adequado do missionário, ele confunde a pregação do evangelho com a difusão cultural, misturando a forma com a essência.

Aqui na América Latina, na África e na Ásia, os traços culturais impostos por missionários são visíveis, e tem gerado confusão nos crentes nacionais que continuam mantendo tradições como se fizessem parte da vida de santidade e das práticas cristãs. Pode levar mais de uma geração até que esses paradigmas sejam quebrados e há práticas que provocam reações nocivas por estarem associadas a formas de dominação. Quando os próprios nacionais assimilam a cultura do missionário e a confunde com o viver cristão, barreiras se erguem contra a mensagem. Por isso, o correto é que o missionário tenha o devido preparo transcultural para que possa envolver-se na cultura do povo a ser alcançado.

A centralidade e autoridade da igreja local é um conceito neotestamentário. Não só o conceito de localidade em relação à cidade ou bairro em que a igreja está inserida, mas também o conceito de nacionalidade para que os missionários não sejam confundidos com os colonizadores. A igreja precisa ser, de fato, o mais local possível, para não causar rejeição cultural.

Um missionário que não permite que seu nome seja revelado, relatou uma conversa que teve com seu mentor que mudou para sempre sua maneira de se relacionar com as pessoas que se agregavam à igreja que ele estava plantando. Esse seu mentor o deixou chocado, a princípio, ao lhe dizer: “Você nunca deve entregar a igreja que está plantando para a comunidade local”. Como ele havia sido ensinado a plantar uma igreja e deixá-la organizada para os seus membros locais, ficou com uma expressão de “não entendi” estampada no rosto. Mas antes que ele questionasse, seu mentor continuou a frase, depois de uma vírgula: “…porque deveria ter sido deles desde o início”.

Boa parte dos plantadores de igrejas que conheço dizem que fazem assim, mas na maioria dos casos, não é verdade. Essa prática é muito difícil, pois exige total desprendimento e investimento na formação de liderança desde o início do trabalho. O missionário tem que ser, acima de tudo, um facilitador, e não um ator. Deve checar seu próprio ministério se questionando regularmente com perguntas que devem ser respondidas com sinceridade e praticadas.

Algumas destas perguntas seriam: Qual é minha motivação para o que estou fazendo? Tem alguma prática, de minha parte, que me torna um obstáculo para os novos crentes tomarem a iniciativa na liderança?  Há práticas e tarefas que devo deixar? Estou mentoreando e supervisionando, ou induzindo e impondo? Estou ensinando valores e princípios bíblicos, ou meus costumes e preferencias pessoais? Estou fazendo por eles ou ensinando como fazer? Estou discipulando ou manipulando? Vejo meus discípulos como parceiros a quem sirvo, ou como escravos a quem subjugo? É necessário ser sincero consigo mesmo e diante do Senhor da seara. A seara é dele e a Bíblia ensina que é ele quem arregimenta os trabalhadores.

Uma resposta para ““Por todo o mundo… a toda criatura””

  1. EDVALDO F DA COSTA disse:

    Muito claro o texto e que seja luz para que muitos que estejam nesta prática ,possam refletir a luz da palavra de Deus e recuar para o bem da comunidade

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