Por que deixei o Timor Leste?

Redação JA  »  fevereiro 2021

O texto desta matéria é o relato do Pr. Ronaldo Fernandes Teixeira, casado com Thalita Lorene Lima Ferreira Fernandes. Eles são missionários da MMM. O texto foi enviado aos seus mantenedores aqui no Brasil, em 26 de junho de 2020, da cidade de Dili, capital do Timor Leste, onde estavam, na época. Neste momento ele já está no Brasil. Eles saíram do Timor Leste dia 20 de julho de 2020 e chegaram ao Brasil no dia 24.

No dia 31 de janeiro de 2021, depois de seis meses desde o retorno ao Brasil, Pr. Ronaldo comunicou que seu filho Estevão está em tratamento, mas há mudanças a serem feitas. Orem por ele.

Pr. Ronaldo já está visitando as igrejas parceiras e continuará nesta prática e pede que estejam orando para que ele e sua esposa tenham discernimento e convicção quanto ao novo campo de trabalho. Esta decisão deverá ser tomada em breve. Já há algumas indicações de possibilidades, mas ainda não há nada definido sobre o novo campo.

Pr. Ronaldo nos autorizou a publicar o conteúdo de sua carta, explicando o motivo da mudança de campo, conforme mencionado, como segue:

Gostaria de comunicar por meio desta carta uma difícil decisão a respeito do futuro ministerial da minha família. Isso aconteceu após um longo tempo de oração, leituras e reflexão sobre ministério, família e, em especial, sobre a saúde do nosso filho, Estevão. Como a maioria dos irmãos sabe, o Estevão tem TEA – Transtorno do Espectro Autista. Ele nasceu no Timor Leste em 2015 e, em 2017, quando estávamos no Brasil para o período de relatórios, ele foi diagnosticado. Ainda assim, decidimos voltar para o nosso campo, apesar da orientação contrária dos médicos e terapeutas.

Até 2019, eu acreditava que era possível para mim e a Thalita acompanharmos o Estevão com as terapias que aprendemos no Brasil. Eu tinha a esperança de que ele evoluiria, mas isso não aconteceu, embora tenhamos feito as terapias com dedicação durante estes dois anos. Voltei, então, a pesquisar sobre o autismo e cheguei à conclusão de que realmente há necessidade de um tratamento especializado. Hoje não tenho paz para continuar em um local que não tenha terapias para ele. Tenho o peso da responsabilidade de cuidar da minha família, apesar de amar o povo timorense. Além disso, a Thalita tem sofrido muito, principalmente por causa das crianças.

O nível de autismo do Estevão é entre moderado a severo. Ele precisa de tratamento com terapias multidisciplinares. Vários aspectos de seu desenvolvimento são comprometidos e necessitam de múltiplas intervenções. Está provado que quanto mais cedo elas iniciarem, mais chances haverá de evolução, claro, se Deus permitir. Hoje ele tem quatro anos e oito meses. O Estevão não fala nada, não compreende quase nada que falamos. Está começando a seguir instruções simples, tem muita estereotipia (movimentos repetitivos), tem deficiência intelectual, não come pedaços, tudo que oferecemos para ele que não seja batido, ele só chupa e cospe. Gira do nada. Tem risos inapropriados. Faz barulhinhos, além de outros fatores que o destacam como uma criança diferente.

O tratamento adequado inclui: Terapia da Fala, Terapia de Integração Sensorial, Terapia Físico-Motora e Terapia Comportamental (ABA). O que estamos fazendo aqui é o ABA e uma atividade física, utilizando a sala que montamos. Essas terapias são reconhecidas e comprovadas cientificamente. Há ainda outras opções de tratamento. Para além dos sintomas do autismo, tanto ele quanto o Zadoque são muito alérgicos, o que faz com que eles adoeçam com muita frequência e precisem de acompanhamento com consulta e exames a cada semestre.

Aqui no Timor não existe nenhuma clínica de terapia. Portanto, o Estevão não tem evoluído o quanto deveria. Temos a consciência de que o Senhor pode não querer que ele evolua. Mas também cremos que temos o dever e a responsabilidade de cuidar dele. Além disso, a questão de saúde é muito complicada. Não há exames complexos, não há remédios básicos de alergias nem de outras doenças e não há médicos especialistas. Os irmãos têm acompanhado em oração as lutas que tivemos nos últimos meses.

Portanto, iremos sair do Timor por necessidade de saúde dos nossos filhos, no entanto não queremos deixar o ministério de pregação da Palavra. Estamos considerando a mudança de campo. Para isso, pensamos em três prioridades: campo com baixo número de cristãos verdadeiros, ou seja, com a necessidade de plantador de igrejas; que ofereça as condições para tratamento do Estevão e acompanhamento das alergias, e ser de língua portuguesa, de preferência, que é a nossa língua materna e a do Estevão.

Temos a convicção de que podemos servir a Deus em outro país. Razão para isso é: creio que Deus não me chamou para uma nação específica, mas para um serviço, um ministério, ou seja, para onde eu for, posso realizar o chamado de Deus. No entanto, sou inclinado a continuar trabalhando com missões transculturais, especificamente evangelismo e plantação de igrejas. Muitos irmãos me consideram corajoso por ter regressado ao Timor apesar da doença do Estevão, mas tenho aprendido que a verdadeira coragem e bravura é servir a Deus aonde quer que Ele me envie.

Quanto ao trabalho que começamos aqui, com a graça de Deus ele vai continuar com o missionário Seth David e estamos esperando a chegada de um novo casal de missionários para o próximo semestre. São eles: Osmundo, Mari e a filha. Eles são da missão AMI. Se Deus permitir, chegarão nos próximos meses. Eles já levantaram boa parte do sustento para isso. O Logos Centro De Treinamento continuará como estratégia para alcançar os estudantes como também fornecer vistos para a nova equipe. O missionário David assumiu a diretoria do Logos e os estudos bíblicos. Hoje ele está noivo e casará ainda esse ano com a missionaria Antônia. Durante os primeiros três anos de trabalho foi muito difícil. Tivemos muitos desafios, mas Deus nos sustentou. Investimos em evangelismo de jovens e trabalho com crianças, mas não houve nenhuma decisão. Porém em 2019 tivemos o primeiro convertido, Filipe, e depois outras decisões. E em 2020 mais duas decisões: Felicito e Ata. Os três já foram batizados e discipulados. Esperamos em Deus que esse pequeno grupo de estudos bíblicos em breve se torne uma igreja que faça a diferença nessa cultura. A Igreja Batista de Beali em Manatuto que demos suporte por todos esses anos já conta com um pastor local e pode prosseguir sem a nossa ajuda.

A Missão Maranata e a nossa Igreja mãe, Igreja Bíblica Batista do Planalto, estão cientes da nossa decisão e têm nos acompanhado nesse processo de transição de campo. A liderança da nossa igreja pretende ter um tempo conosco para orarmos e trabalharmos juntos nos primeiros meses quando chegarmos ao Brasil, a fim de decidirmos um novo campo de trabalho. Manterei os irmãos informados com o desenrolar desse novo projeto ministerial que Deus tem para nós.

Dos seus missionários Ronaldo, Thalita Zadoque e Estevão Fernandes.

Contatos: +670 7408 4830, ou pelo e-mail: ronaldofernandes82@hotmail.com

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