Pastores mortos por Covid-19

Redação JA  »  fevereiro 2021

“…os piedosos estão desaparecendo entre os filhos dos homens…” (Sl 12.1).

América Latina teve o maior número de pastores mortos por Covid-19.

Sem dados oficiais, parece que no Brasil a situação é a mesma.

Terminamos 2020 em meio à pandemia do Coronavírus. Ao contrário dos cultos realizados com a maioria dos membros presentes na virada de ano, tivemos que nos contentar com pequenas reuniões familiares. Um ano que terminava sem muito a comemorar, mas com certa expectativa, de que em 2021 as coisas poderiam melhorar.

Como faço parte de uma missão e atuo na área de divulgação da obra missionária, recebo informações o tempo todo. De-repente, as notícias que chegavam, no início deste 2021, eram de pastores e missionários indo a óbito devido à contaminação pelo coronavírus. Várias mortes e casos graves crescendo. Como vivemos em um grupo relativamente pequeno comparado à maioria das denominações evangélicas, o número de colegas que nos deixam a cada ano é sempre pequeno. Lembro-me de alguns anos nos quais nenhum dos nossos colegas de ministério foram a óbito.

Mas terminamos o primeiro mês de 2021 com um recorde de mortes de colegas pastores e missionários. Mais de uma dezena em 30 dias, e com a certeza de que ainda não sabemos a quantidade certa dos que foram recolhidos pelo Senhor. As fotos divulgadas nesta matéria, com sete falecimentos, representam apenas uma amostra do que ocorreu, pois não conseguimos a tempo, todas as imagens. Enquanto escrevo esta matéria, em lágrimas, e orando pelos familiares dos que partiram, estou em intercessão por outros colegas em tratamento em risco de morte.

Impressionado pelos números, procurei identificar, em nossa região, pastores de outros grupos evangélicos que haviam morrido. A surpresa foi maior ainda, pois especialmente entre os grupos pentecostais e neopentecostais, os óbitos surpreendem.

Nas pesquisas para escrever este texto, deparei-me com um artigo publicado pela revista online do Instituto Humanitas Unisinos, (http://www.ihu.unisinos.br) que me deixou estupefato. O autor, o jornalista uruguaio, Raul Zibechi, mostra que a América Latina concentra o maior número de pastores mortos pela Covid-19. Bolívia e Nicarágua lideram em número de pastores mortos. Até o dia 27 de agosto de 2020 havia morrido de Covid mais de cem pastores naBolívia (1), e quase 50 na Nicarágua (2). No caso do Brasil, não consegui localizar nenhuma publicação que apontasse o número nem estimativa de mortes entre pastores.

O que levou a tantas mortes de pastores?

Para líderes evangélicos de vários países da América Latina, desde o México, até à Argentina, o maior problema foi a desinformação. No início, tanto na Bolívia, quanto na Nicarágua, as igrejas permaneceram abertas. Alguns pastores e líderes falavam em curas milagrosas e diziam que o vírus era uma praga que mataria apenas quem não tivesse fé. Os cultos continuavam como se nada estivesse acontecendo, sem os cuidados de higienização preventiva.

Pastores de diversas denominações evangélicas, tanto na Bolívia, quanto na Nicarágua mantiveram contatos pessoais com seus fiéis, mesmo em meio às maiores restrições para que as igrejas permanecem fechadas. Os pastores faziam visitas nas casas para orar pelos enfermos devido à Covid-19, com os quais mantinham contato sem os devidos cuidados. “Eles morreram pela obra”, diziam os fiéis.

O lema de muitos grupos evangélicos era este: “Estamos passando por tempos difíceis. É hora de buscar a presença de Deus”. E iam para suas reuniões públicas sem o cuidado com o distanciamento e a higienização. Em algumas congregações, por falta de álcool em gel, havia água e sabão para higienização, mas poucos faziam uso adequado.

Certamente há outros fatores que levaram tantos à morte, como a baixa imunidade, devido à pobreza alimentar, e a falta de recursos médicos, mas não há como negar que o mal maior tenha sido a ignorância e o negacionismo de muitos em relação à agressividade de uma doença que ainda causará muitas baixas em toda a humanidade.

O caso Manaus AM

Antes de terminar este texto, eu não poderia deixar de mencionar o que tem acontecido na capital do Amazonas, Manaus, com quase dois milhões e meio de habitantes. Já estive no Amazonas mais de uma dezena de vezes e tenho muitos amigos e colegas por lá. No início da pandemia, acompanhamos o trabalho realizado pelo Pr. Francimar Pontes Soares, da Igreja Batista Liberdade Central, em Manaus, que se tornou voluntário na celebração de cultos fúnebres do Cemitério Tarumã, um dos maiores na capital manauara. Fizemos uma matéria sobre sua atuação e foi publicada na edição 317 do Jornal de Apoio. Até maio de 2020, Pr. Francimar já havia celebrado mais de 400 cultos fúnebres. Agora, no início de 2021, já ministrou em mais de 1.200 sepultamentos de mortos durante a pandemia.

Eu estava quase terminando de escrever este texto, quando recebi um apelo do pastor presbiteriano, Djard Cadais Morais, Presidente do Presbitério do Amazonas, que me levou, mais uma vez, às lágrimas: “Nós estamos vivendo, uma situação caótica. Manaus está como uma cidade sob ataque em tempo de guerra, sendo bombardeada, não por uma esquadrilha de aviões, mas pelo vírus Covid-19. Para vocês terem uma idéia, os nossos hospitais já não comportam mais doentes da Covid-19, e estamos enviando doentes para outras cidades do Brasil em busca de UTI e tratamento. Essa realidade se deve à nova cepa do vírus, uma variante que é mais contagiosa e mais letal. Nos hospitais, além da falta de leitos, faltam profissionais da saúde, médicos e enfermeiros. E para complicar ainda mais a situação, falta também, oxigênio, fazendo com que muitos leitos se tornem câmaras de asfixia”.

Juntamente com essa descrição terrível, o Pr. Djard relatou que só nas igrejas presbiterianas em Manaus, já morreram 170 pessoas de Covid-19 e a “Força Tarefa” está tratando de outras 180 pessoas em casa por falta de vagas na rede hospitalar.

No final, ele apresentou o “Projeto Celeiro” elaborado pelas igrejas Presbiterianas para ajudar a amenizar o sofrimento das famílias através de cestas básicas de alimentos, compra de insumos médicos para tratar pacientes em casa e cilindros de oxigênio. Eles procuram possibilitar que a Força Tarefa formada por médicos e enfermeiros das igrejas presbiterianas de Manaus continue atendendo aos doentes em casa devido à falta de vagas na rede hospitalar.

Neste momento em que termino o texto, câmaras frigoríficas estão sendo instaladas próximas aos hospitais para que corpos aguardem identificação e vaga para sepultamentos.

Risco de megaepidemia

Autoridades médicas sanitárias estão alertando para o risco de termos no Brasil, até o final de março de 2021, por conta dessa nova cepa do vírus descoberta em Manaus, uma megaepidemia. O motivo do alerta deve-se ao fato de estarmos transferindo pacientes de Manaus para outras cidades do Brasil com o risco de espalhar a nova cepa. Já sabemos que é maior a letalidade e transmissibilidade dessa nova variante do vírus.

Identificada no dia 9 de janeiro, a nova cepa logo chegou ao Japão através de turistas que passaram por Manaus. Depois disso a variante já foi identificada na cidade de São Paulo e em diversos países, como Itália, Estados Unidos e Alemanha. Por essa razão, muitos países estão fechando os aeroportos para voos internacionais que passam pelo Brasil.

Além dessa cepa, já se constatou que existem outras duas variantes que preocupam por conta de indícios de maior transmissibilidade: a britânica, detectada em 70 países, e a sul-africana, presente em pelo menos 31 países.

Como povo de Deus, além de tomarmos os devidos cuidados, devemos clamar a Deus por este mundo em trevas. Orar e trabalhar pela salvação de almas.

  • ReligiónDigital, 27/08/2020, com tradução de Wagner Fernandes de Azevedo.
  • Javier Arismendi, citado por Raul Zibechi no artigo Porque a América Latina é o epicentro da pandemia?

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