Pastores Ditadores

Carlos Moraes  »   Editorial | dezembro 2021

Na edição passada tratamos dos “donos das igrejas”. Alguns comentários feitos através do nosso WhatsApp e outros diretamente no site deram a entender que “pastores ditadores” também constituem um mal a ser erradicado, tanto quanto os “donos das igrejas”. Portanto, vamos fazer algumas considerações sobre “pastores ditadores”.

Logo de saída posso dizer que há dois pontos cegos nessa questão que, levam à colisão. Mas é bom dizer, antes de mencionar os dois pontos, que Cristo é a cabeça da igreja e todos os demais são membros uns dos outros. Por essa razão, cada um deve servir de acordo com os seus dons, tendo como baliza, o amor (1 Coríntios 12 e 13).

O primeiro ponto cego, tem suas raízes em um equívoco eclesiológico, agravado por uma forte influência da cultura ocidental e por uma exigência legal que exige um estatuto e uma diretoria administrativa. Pode-se dizer que, tanto os “donos das igrejas” quanto os “pastores ditadores” são formados devido a isso.

Os “donos das igrejas” geralmente passaram pela diretoria, ou pelo diaconato que é outro resultado de interpretação equivocada na eclesiologia. Os “pastores ditadores”, na maioria das vezes, são oriundos de uma cláusula estatutária da maioria dos estatutos, pelo menos nas igrejas batistas, exigindo que “o presidente da igreja será sempre o pastor”.

Vendo nisso um problema para as igrejas se organizarem administrativamente, a única igreja que pastoreei, só assumi com a condição declarada de que faríamos um novo estatuto removendo essa cláusula. Deu certo e continuo membro dessa mesma igreja, que nunca mais teve o pastor na presidência e nem na diretoria.

O segundo ponto cego, deve-se a outra interpretação equivocada sobre a liderança da igreja local. Em todo o Novo Testamento as lideranças das igrejas eram coletivas. Não existe esta figura do pastor-faz-tudo. Até mesmo nas equipes ministeriais os dons são diferentes (Efésios 4). Mais uma vez temos que olhar para a cultura ocidental do pastor-chefe, figura do mundo empresarial, que desfigura, completamente, o ensino da liderança plural do Novo Testamento. 

Sobre a “ditadura pastoral”, podemos dizer que se trata de uma distorção do ensino bíblico sobre liderança. O próprio Senhor Jesus não apenas ensinou, mas demonstrou como se ocupa o lugar de destaque na liderança cristã, sendo servo (Mateus 20.26-28). Como todo pecado, esse também nasce na mente e no coração de quem o comete. Em algum momento começa o desvio para que a igreja se torne de “alguém”, como se já não tivesse dono.

O ensino bíblico é que, diante de uma tentação temos dois caminhos a seguir: cair ou resistir. Sempre podemos resistir, pois ninguém será tentado acima do que é capaz de suportar. Portanto, torna-se indesculpável quem cai. Vai precisar de arrependimento e perdão como acontece com todos os pecados.

O que não podemos deixar de mencionar é o fato que todo pastor, sem distinção, sempre está muito próximo de se tornar um ditador. Eu nunca me esqueço de um professor que dizia: “Cuidado, todos nós somos propensos a heresias”. Além disso, a Bíblia ensina, que aquele que cuida estar de pé, tem que tomar cuidado para não cair (1 Coríntios 10.12). Todos nós já nos sentimos incomodados quando alguém nos disse que o que estávamos fazendo deveria ser feito de outa maneira. Quantas vezes já pensamos mais ou menos assim: “Essa igreja só vai para frente porque eu estou aqui”.

Para não se tornar ditador, é necessário diferenciar autoridade de autoritarismo. O “poder” precisa ser entendido no contexto do ministério pastoral. Jesus, ao proferir a grande comissão para a sua igreja, falou a todos de igual modo, pois estavam reunidos em um mesmo lugar e nenhum acima de outros. O “poder” foi dado a Cristo e não a nós. “Poder” denota autoridade, domínio, influência. Os homens em suas diversas organizações, inclusive nas igrejas locais, precisam de formas organizadas de governar. Precisa de comando, de liderança, de direção, mas não precisa de autoritarismo ditatorial.

A igreja local deve ser dirigida pelo sistema congregacional no qual todos os membros têm voz ativa e devem participar deliberativamente para que seja conduzida para o seu melhor no plano espiritual, evangelístico, administrativo e social. Toda igreja local tem seus problemas, mas “pastores ditadores” destroem a obra de Deus, tanto quanto os “donos das igrejas”. Ambos são arrogantes e gostam de pessoas subservientes que os aplaudem. Mas a falência de uma congregação é bem rápida, quando há dentro dela, os “donos das Igrejas” em confronto com o “pastor ditador”.

2 respostas para “Pastores Ditadores”

  1. Pr. Joel Azer. disse:

    Muito bom pr. Carlos. Conheço alguns pastores ditadores. Uma IBR perto da minha casa tem um assim. Ele colocou um pr para pastorear já uns 2 anos mas quem manda é ele. Ele já tem uns 70 anos e uma saúde debilitada. Disse que vai ficar lá até 80 anos de idade. Esse tem atrapalhado muito crescimento da igreja. Parabéns pelo estudo.

  2. Pr. ALVARO A PAVAN disse:

    Humm…, conheço bem estas histórias. Depois de quase 60 anos de fé cristã e 50 de ministério pastoral, já presenciei a ascensão de muitos pastores “imperialistas” e de “donos de Igrejas”. Vi também os que desmoronaram no meio do caminho. Uma REFLEXÃO que retrata a pura verdade nos mais diversos ambientes denominacionais da Igreja Evangélica em todas os países e culturas, e especialmente no Brasil.
    A Igreja organização, resultado da ação humana, não tem mais retorno. Está conosco por 1700 anos.
    Mas considero que o problema não está no “cargo” exercido, mas sim, na pessoa que o exerce.
    Os que se esquecem que foram chamados para servir a um Reino cujo trono está ocupado, intentam construir um Império para terem seu próprio trono. E mesmo que não exerçam cargos, têm, ocupando os mesmos, subservientes que o obedecem sem contestar. O pior é que, na sua maioria, as intenções imperialistas destes, avançam dentro das demais organizações paraeclesiásticas.
    Daí que surgem os donos de ONG’s, de Instituições Teológicas, de Agências Missionárias, e de tantas outras organizações que, embora com o objetivo de servirem às Igrejas, se transformam em redutos de “pastores imperialistas” e dos “donos de Igrejas”.
    Dou graças a Deus por fazer parte de uma “Igreja Movimento”, onde nosso lema principal tem sido “nenhuma honra, nenhuma glória, nenhum poder e nenhum louvor, pois estes pertencem a Deus, que está no trono”.
    Só mesmo a eternidade nos revelará as intenções do coração. Hoje…, apenas Deus as conhece. E com autoridade, quando chegar a hora, Ele dirá: “Eu nunca conheci vocês! Afastem-se de mim…”.*_

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