Pastores deixando o ministério

Carlos Moraes  »  dezembro 2020

Editorial »

Nestes nove meses de pandemia, todos nós refizemos algo nos planos de vida. No meu caso, a maior mudança dos últimos 40 anos dentro das práticas cotidianas, foi em relação à agenda que eu comprava no final de setembro de cada ano para dar início às anotações do ano seguinte. Se alguém quisesse saber onde eu estava e o que estava fazendo cada dia no último ano, era só dar uma vasculhada da agenda que funcionava como um diário de bordo. Pois é, desde março de 2020 a minha agenda ficou de lado, como a de muitos outros.

Pastores e missionários, em geral, vivem com a agenda ao lado da Bíblia, mesmo que no dia a dia do trabalho ministerial as agendas sofram mudanças devido aos imprevistos e às necessidades urgentes que vão exigindo as mudanças.

Todos os pastores com os quais tenho me comunicado durante estes nove meses dizem a mesma coisa – a pandemia exigiu muito mais do que o normal e ainda foi necessário aprender a lidar com ferramentas que antes não eram indispensáveis no campo da tecnologia das comunicações pelas redes.

A diminuição dos contatos entre os pastores e seus rebanhos, tornou tudo mais difícil. Não há como substituir o calor da presença, do olho no olho, do aperto de mão e do abraço. Até as orações à distância são prejudicadas. Neste ano eu investi mais tempo em oração intercessória do que em anos anteriores, mas mesmo assim parece que nada foi feito. Cada vez que recebo um pedido de oração pelo WhatsApp, ou qualquer outro meio eu oro na hora, mas, não vendo a pessoa, falta algo.

Os sermões pregados online, podem até alcançar mais pessoas, além daquelas que alcançaríamos no local de culto, mas não é a mesma coisa. O alcance numérico não substitui o alcance presencial. O mesmo ocorre com o aconselhamento. Aconselhei mais pessoas e investi mais tempo neste trabalho este ano, mas, como foi à distância, parece que nada aconteceu, mesmo quando houve bons resultados.

Tais dificuldades para os pastores não acontecem apenas aqui no Brasil. Quando me propus a tratar deste assunto, procurei saber sobre outros lugares e descobri que nos EUA, houve até pesquisas sobre esse tema, pois tem ocorrido o mesmo por lá.

Aqui no Brasil, durante estes nove meses ouvi de muitos pastores que planejam deixar o ministério, ou passar a um trabalho ministerial bivocacional para evitar maiores cobranças. Pelo que li sobre o ocorrido nos EUA, essa dificuldade pastoral tem sido uma tragédia maior ainda do que por aqui. As pesquisas apontam para uma porcentagem considerável de pastores que planejam deixar o ministério de suas igrejas locais em 2021.

Não há precedente de uma época em que tão grande número de pastores estivessem com tal disposição de deixar o ministério. É como se estivessem em meio a uma batalha sem nenhuma chance de vencer.

Todo pastor sabe que, tanto a sua vida pessoal, quanto da sua família estão sob vigilância cerrada e, com a crise, as exigências e cobranças cresceram ao mesmo tempo em que a capacidade para atender a demanda diminuiu, devido à falta de voluntários para os apoiar.

Mas o peso maior que está sendo colocado sobre os pastores atualmente, é a crítica devido aos seus posicionamentos. Seja qual for a decisão por eles tomadas, vão desagradar a metade do rebanho que está dividido politicamente. A instabilidade política e social gerada pela pandemia está sendo discutida intensamente e com muita hostilidade através das redes sociais e dividindo as congregações. Uma pesquisa da LifeWay Research durante a pandemia mostrou que “a postura das pessoas se dividiu muito em linhas partidárias. Metade da igreja se opõe a qualquer reabertura. A outra metade está frustrada por ainda não reabrir tudo”.

Há um afastamento das pessoas que antes apoiavam os pastores e as equipes vão sendo dissolvidas por falta de voluntários para servir.

Os membros das congregações precisam se lembrar que, da mesma forma que as ovelhas precisam dos pastores, também os pastores precisam das ovelhas. Paulo escreveu: “Ninguém odeia sua própria carne, mas cuida dela…” (Efésios 5.29).

Como ovelha, que todos somos, oro para que os nossos pastores recebam palavras amigáveis e apoio nas batalhas. Pessoas que, como Arão e Ur, possam segurar seus braços cansados. Como colega de ministério, apelo aos pastores para que, antes de desistir, faça uma pausa. Não exija perfeição de si mesmo, pois não somos perfeitos. Converse com um colega no qual você confia. Tenha um hobby, uma diversão, pois isso faz parte da vida. Mas o principal apelo nesta hora de decisão devido às grandes lutas e dificuldades é para que cada um de nós nos lembremos do nosso chamado e vocação. Deixar de considerar este aspecto da vida ministerial pode ser fatal.

Uma resposta para “Pastores deixando o ministério”

  1. Waldenilson Carrera disse:

    Boa tarde. Graça e Paz à todos, sou pastor batista bíblico aqui em Ananindeua no estado do pará, e tenho passado por situações semelhantes, que o artigo está tratando. Peço vossas orações amigos, um forte abraço à todos os amigos pastores.

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