Pandemia, missões… e agora?

Redação JA  »  maio 2021

Etimologicamente, pandemia é “algo que afeta todas as pessoas”. No sentido genérico, o termo é de origem grega, e foi usado pela primeira vez por Platão, referindo-se a qualquer acontecimento capaz de alcançar toda a população mundial. O termo pandemia, do grego pan = tudo / todo(s) + demos = povo, significa exatamente, “algo que afeta todas as pessoas”.

Para a epidemiologia, o conceito moderno de pandemia na medicina, como no caso da Covid-19, é definido como uma epidemia que se origina de um surto em lugar específico do globo e se propaga através dos continentes ao longo do tempo.

A batalha que ora se trava no mundo na busca pela vacina que seja capaz de deter a Covid-19 e estancar as mortes, mobilizou cientistas do mundo todo e já é considerada pela OMS como a maior pandemia de todos os tempos, deixando para trás, gripe espanhola, peste bubônica, varíola, tifo, e cólera, entre outras. Mas o pior é que os pesquisadores não conseguem determinar até quando irá essa pandemia, por não terem certeza da eficácia das vacinas sobre as variantes do vírus e a possível duração da imunidade produzida por elas.

Deixando de lado a Covid-19, quero inserir um elemento comparativo que deverá nos conduzir à reflexão proposta em nosso título: Pandemia, missões… e agora?

O elemento que quero introduzir é a queda do homem, a entrada do pecado no mundo, que se deveu à “infecção” do pecado, gerando a doença denominada “desobediência” (Rm 5.19) que, de um surto se espalhou, tornando-se uma pandemia, afetando toda a humanidade (Rm 5.12). O antídoto contra a desobediência foi logo em seguida prescrito pelo próprio Criador que, na sua misericórdia, providenciou a solução: a “obediência” (Rm 5.19).

Em todo o desenrolar da Antiga Aliança, o Deus Criador e Salvador, mostrou através da história, a sua provisão anunciada por Ele mesmo através dos profetas, até chegar ao cumprimento, na pessoa do Cristo (Fp 2.3-1). Para sintetizar posso dizer que Deus dá à obediência, tanta importância que, para restabelecer a comunhão entre Ele e o pecador, foi necessário enviar seu próprio Filho unigênito ao mundo para dar a Sua vida, sendo “obediente ao Pai até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.8) e, assim, “como pela desobediência de um só homem (Adão), muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um (Cristo), muitos serão feitos justos” (Rm 5.19).

Na Antiga Aliança, as pessoas olhavam para a frente, aguardando a vinda do Messias que restauraria as relações com o Criador e Pai. Depois de consumada a obra do Messias (Cristo), começou a dispensação da Graça, na qual a Igreja anuncia a salvação providenciada pelo derramamento do sangue de Cristo na morte de cruz, restabelecendo a obediência – o antídoto contra o “vírus” do pecado.

Agora, na era da Igreja, à qual foi dada a missão de divulgar as Boas Novas da “cura” contra o pecado, aqueles que vão sendo salvos se tornam propagadores da mesma mensagem que receberam: pregar o Evangelho da Graça de Deus, a “vacina” que anula o efeito do pecado.

E AGORA?

Agora, diante de um tempo de incertezas, nós que temos a incumbência de levar adiante a mensagem de salvação, ficamos na expectativa sobre como há de ser, a forma de levar a mensagem, frente ao que chamam de “novo normal”?

Do meu ponto de vista, vejo que se trata de um assunto altamente relevante e que merece receber toda atenção de quem tem uma missão a cumprir. Certamente, a obra missionária como hoje fazemos, sofrerá mudanças. Mas isso não significa que será pior ou melhor. Sempre houve mudanças na forma de fazer missões e, algumas vezes, as mudanças foram radicais.

De minha parte, eu vejo que a maioria de nós nos tornamos um tanto pragmáticos na forma, até ao ponto em que esse pragmatismo tenha criado uma atitude perigosa de quase ignorar a ação do Espírito Santo. É como se a metodologia e as estratégias e planos fossem capazes de substituir a ação de Deus. Daí me ponho a imaginar que, a paralização forçada em muitas de nossas atividades, seja capaz de nos levar, de novo, a fazer uma releitura do que realmente seja a “Missio Dei”.

O que não podemos é ignorar os riscos que essa pandemia pode trazer, tanto à vida das pessoas, quanto às organizações. Particularmente tenho me deparado com duas formas de pensar dos meus irmãos em Cristo. A mais comum é aquela que procura minimizar o estrago que a pandemia fará no “modus vivendi”, acreditando que tudo voltará ao normal. A outra, é a catastrofista que enxerga apenas o caos pós pandemia.

De minha parte, frente a essas duas formas, que respeito, me posiciono de modo otimista, crendo que teremos uma grande abertura para novas formas de fazer missões que dependerá de uma maior flexibilidade nas formas, pois todos estaremos, forçadamente, lançados para fora da nossa zona de conforto. Mais ou menos como aconteceu com a igreja primitiva, naquela mudança de Atos 7 e 8 provocada pela morte de Estevão e a dispersão de todos, exceto os apóstolos. Creio que o recado que o Senhor deu à Igreja naquele momento foi para que ela fizesse o que sabia que tinha que fazer, mas não estava fazendo.

As nossas práticas e projetos sofrerão mudanças radicais que não seriam aceitas em circunstâncias normais. A Igreja nunca atuou de forma uniforme. O mundo sempre exigiu formas diferentes em diferentes lugares e culturas. Certamente essas mudanças que prevejo não uniformizará o modo de operar, mas trará mudanças pontuais em tudo, mas especialmente em nossa resiliência e fé, diante de situações desfavoráveis.

Há muito vejo que precisamos nos desapegar de todas as estruturas pesadas que ocupam muitos recursos financeiros e tempo dos missionários. Aliás, as maiores cobranças e pressões dizem respeito às estruturas. Os maiores investimentos têm sido em “coisas” e não em pessoas. Esse tem sido um paradigma que a pandemia tem contribuído para amenizar.

Creio que teremos muitos fatores a serem considerados no pós-pandemia. Há os que vão afetar negativamente, mas outros certamente favoravelmente. O que fica muito claro é o fato que não é o momento de planejamentos a longo prazo pelo simples fato de desconhecermos as condições futuras. A maioria dos planos anteriormente projetados, também não terão como serem executados. Cautela é o melhor conselho.

As nossas tradições e políticas de missões terão que passar por reavaliações. Li uma frase uma ocasião, que ficou em minha mente, mas não me lembro exatamente das palavras e nem se havia no texto o autor, mas ela sempre me vem à mente quando o assunto é política de missões presa às tradições: “As tradições e as políticas tendem a desligar o nosso pensamento”.

O que mais vamos precisar será de criatividade, além de uma dependência de Deus muito mais profunda, capaz de desligar nossa disfarçada confiança nas estruturas. Será uma etapa, na qual a segunda parte de Mateus 28.20 terá que ser muito real.

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