O missionário do século 21

Redação JA  »   agosto 2021

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”.
Atos 1.8

Meu trabalho na liderança de uma agência missionária, me coloca em contato com pessoas envolvidas com missões nos mais variados aspectos. A maioria dessas pessoas, comprometidas com a vanguarda missionária, está de olho nas mudanças que ocorrem no mundo e que podem influenciar, de alguma forma, a obra missionária.  Desde quando Lucas escreveu o primeiro capítulo da história de missões, no livro de Atos dos Apóstolos, até hoje, tem havido muitas mudanças estruturais na forma de se fazer a obra confiada por Cristo à Igreja.

Tratando do missionário do século 21, quero retroceder até os dias de William Carey (17/08/1761 – 9/06/1834), traçando um breve relato das mudanças que realmente nos interessam. Pode-se dizer que, o Pai das Missões Modernas, William Carey, inaugurou uma nova forma na história das missões, fazendo nascer o conceito de agência missionária. Assim, do século 19 até meados do século 20, o avanço na evangelização mundial cresceu a olhos vistos, mais rapidamente do que em qualquer outro momento da história da Igreja.

A partir de meados do século 20, novas mudanças foram ocorrendo, não tanto na forma, mas geograficamente, quando o epicentro do envio de missionários começou a deslocar-se para os países em desenvolvimento. Não levou muito tempo para o contingente missionário desses novos enviadores equipararem-se e até superarem as antigas matrizes enviadoras.

Chegando aos nossos dias, vivemos sob um fenômeno jamais visto. Uma época em que as mudanças e quebra de paradigmas chegam a desnortear-nos. O que tem se firmado, de modo incontestável, é a visão de plantar igrejas locais autóctones capazes de se auto sustentarem, autogovernarem e auto propagarem. Entre nós, batistas, isso não é novo, pois cremos que deve ser assim. Portanto, de certa forma, estamos em vantagem, pois a nossa base bíblica é sólida e combina com as exigências do contexto atual.

O que ocorre neste momento, é que todas as mudanças que vinham sendo idealizadas para esta geração, foram agilizadas pelas medidas sanitárias tomadas desde o início da pandemia. Assim, a forma de se fazer a obra missionária, diante das mudanças tecnológicas, e frente à reação na maioria das nações em todos os continentes, exigem mudanças que são difíceis para quem sempre manteve certa distância da vanguarda.  

Alguns fatores que devemos observar:

Primeiro: Contrariando, em grande parte, o que se previa sobre a globalização, o mundo está assistindo a uma reação nacionalista e até separatista.  

Segundo: A globalização econômica está sendo realizada à parte das decisões de governos. O capitalismo assume uma nova forma controversa em relação às suas práticas anteriores. Mudanças iniciadas em 2008, ainda não foram adequadamente explicadas, e muitas perguntas estão sem respostas.  

Terceiro: A nova denominação adotada, “Capitalismo Inclusivo”, altera de maneira radical a forma de ser do capitalismo, de duas maneiras:
1 – A acumulação de riquezas, espírito do capitalismo neoliberal, agora se multiplica de maneira nunca antes vista;
2 – A socialização da miséria se universaliza.

Na prática, os acumuladores de riquezas continuam aumentando o capital, fora do controle dos governos, estabelecendo de vez, uma ditadura das mais cruéis de todos os tempos através do controle total pela economia. Embora isso não surpreenda os que creem nas Escrituras e sabem como será o fim dos tempos, o que preocupa é a crescente cegueira provocada por ideologias, frente a uma geração desatenta aos fatos. O controle econômico, através de suas fraudes monumentais e ataques à liberdade das nações, tem sua base legal no Fórum Econômico Mundial, que desenvolve o que eles chamam de “A Grande Restauração da Ordem Capitalista Mundial”.

Daí a designação de “Capitalismo Inclusivo”, que exige a “socialização da miséria” para as maiorias, e o crescimento da acumulação de riquezas nas mãos de uma minoria que está fora do controle governamental e detêm o poder real. O novo “socialismo” é oriundo do capitalismo e o fardo recai sobre os governos formais que não controlam as finanças. Daí a designação de “socialização da miséria”.

A pergunta é: O que nós, que estamos envolvidos na obra missionária, temos a ver com isso?

Primeiro: Conhecer estes desdobramentos é fundamental, pois as estratégias a serem desenvolvidas precisam basear-se na ordem econômica e política estabelecida. Servimos a Deus sempre dentro do contexto no qual estamos inseridos.

Segundo: No caso atual, o novo paradigma é dinâmico, pois as tecnologias que vão nascendo da Inteligência Artificial, não podem ser deixadas de lado. Do mesmo modo que as estradas romanas e as navegações serviram à Igreja no primeiro capítulo da história de missões, cremos que as estradas tecnológicas do século 21 deverão ser trilhadas por nós neste provável capítulo final da dispensação da Igreja.

O missionário do século 21 – um “facilitador” na evangelização.

Sim, eu sei que não gostamos do termo “facilitador” e, por isso, o coloquei entre aspas. Conforme dissemos anteriormente, a pandemia agilizou as mudanças que vinham sendo feitas na globalização. Em relação ao modo de fazer missões e de reunirmo-nos como igrejas locais, sofreram mudanças que nos pegaram de surpresa e não voltarão à normalidade de antes. Por isso, a adaptação, que está sendo difícil e experimental, pode se agravar ainda mais.

O fato da globalização econômica estar sendo executada sem a participação direta dos governos constituídos, aliado à questão desse acirramento do nacionalismo separatista, cria um fato novo. Esse fato novo vai dificultar a “intromissão” nas estruturas nacionais, que vão exigir que os novos missionários exerçam não mais o papel de “iniciador” das novas igrejas em outras culturas, mas apenas o papel de “catalizador” que vai “facilitar” o trabalho do “nativo”.  

De certa forma, já temos trabalhos assim em alguns países nos quais os missionários estrangeiros não podem fazer “proselitismo” entre os nacionais. Há liberdade religiosa, mas não liberdade para missionários estrangeiros. Esse é o caso da Índia, por exemplo, onde os missionários estrangeiros podem manter contato apenas com líderes nacionais, fornecendo treinamentos e apoio financeiro, mas não podem falar em público com o povo tentando convertê-los.

Esse novo paradigma da obra missionária precisa ser assimilado o quanto antes, pois tudo anda mais rápido do que qualquer outra época. Não dá mais para a Igreja andar na retaguarda.

Como, então, deveremos fazer missões?

Primeiro – Desde o início, o missionário em campos estrangeiros deve trabalhar com parceiros nativos. Não haverá um momento de “entregar” o trabalho, pois ele já nascerá como algo nacional. Em alguns casos, treinar refugiados que são salvos fora do seu pais é a solução, pois eles poderão se tornar a base para a plantação de igrejas orientados por “facilitadores” de quem os enviou, sem interferência ideológica e sem ferir o nacionalismo. Um exemplo desse procedimento eu acompanhei aqui no Brasil. Uma igreja local estava sustentando pastores cubanos em Cuba e o sustento a eles era levado por turistas que periodicamente se revezavam nas viagens.

Segundo – Mais do que em qualquer outra época, os missionários de “curto prazo”, aqueles que entram e saem como turistas, serão utilizados para promover tanto o acompanhamento quanto o treinamento dos líderes locais.

Terceiro – O trabalho por via remota, com tecnologia online, tanto no treinamento, quanto na consultoria vai se tornando ferramenta indispensável.  

Quarto – O velho estilo “fazedor de tendas”, que se utiliza tanto de profissionais, quanto de aposentados que migram para locais onde poderão servir de base para treinamento como “facilitador” para os nacionais.

Em suma, o “missionário” passa a ter um papel cada vez mais catalisador e “facilitador”, e não tanto de iniciador.

Reflexões necessárias:

Primeira: As novas igrejas locais voltarão ao formato que durou do livro de Atos até o ano 313 com o Imperador Constantino e, em muitos casos, nem poderão ter estruturas físicas – não serão, necessariamente, proprietárias de bens patrimoniais.

Segunda: O desafio para os novos missionários transculturais será ter a motivação e o preparo para mentorear. Na maioria das vezes terá que ficar na sombra agindo como “facilitador”.

Terceira: A visão missiológica que devemos ter, e que influenciará as tarefas que vamos cumprir, exigirá mais renúncia e maior energia, com menos dinheiro.

“E dizia-lhes: Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara”
Lucas 10.2


Pr. Carlos Moraes – Editor do JA

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