O crescimento dos evangélicos no Brasil – avivamento ou apostasia?

Redação JA  »  novembro 2020

Na primeira década do século 21, o Brasil surpreendeu o mundo religioso, quando o Censo do IBGE de 2010 mostrou um crescimento de 61% do número de evangélicos no país. No ano 2000, o IBGE mostrava o Brasil com 26,2 milhões de evangélicos, 15,4% da população. Em 2010 esse número saltou para 42,3 milhões de pessoas, 22,2% da população.

Esse fenômeno chamou a atenção da mídia, de sociólogos, antropólogos e de pesquisadores, mas também da igreja católica e dos políticos. Dos católicos devido às perdas de fiéis e dos políticos, por motivos óbvios. Mas o que não esperavam encontrar era a enorme variedade de formas e conteúdos nas diversas denominações nas quais os evangélicos se dividem, além dos três principais segmentos, tradicionais, pentecostais e neopentecostais.

Quem acompanha, de perto as divisões históricas dos três principais ramos evangélicos mais conhecidos, sabe que há, também, subdivisões denominacionais importantes para a história. Entre as igrejas tradicionais, por exemplo, estão as históricas e as reformadas. Entre as reformadas, os três principais movimentos são luteranos, presbiterianos e metodistas. Das históricas, quero citar apenas os batistas que, aqui no Brasil, se dividem em vários grupos diferentes: Convenção Batista Brasileira – CBB, Convenção Batista Nacional – CBN, Convenção Batista Pioneira – CBP, Associação das Igrejas Batistas Regulares do Brasil – AIBREB, Comunhão Batista Bíblica Nacional – CBBN, Igrejas Batistas Independentes (Missões de Fé), Missão Batista Livre do Brasil – MBLB, Igreja Batista Reformada – IBR, Convenção das Igrejas Batistas Independentes – CIBI (Sueca), entre outras que continuaram com a denominação batista, mas com práticas pentecostais e até neopentecostais.

Além disso, há divisões, da mesma ordem e monta, entre os Presbiterianos, metodistas e Luteranos, bem como nas igrejas pentecostais e neopentecostais. Agora, imagine um antropólogo, sociólogo, cientista religioso e, mesmo um historiador, traçando o perfil de cada um desses movimentos nesse emaranhado de divisões levados a sério por todos que participam de cada grupo. Mesmo que, nos dados do IBGE, sejam todos catalogados pela genérica classificação de “evangélicos”, só Deus sabe como são, de fato.

Há pesquisadores, historiadores e outros profissionais, imbuídos de descrever esse fenômeno, como é o caso de Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, que reconhece o fato que, em termos absolutos, o Brasil é o país que registrou o maior crescimento evangélico, em todo o mundo, nos últimos 30 anos. Há farto material de cunho acadêmico sendo produzido atualmente sobre isso em várias partes do mundo.

No entanto, enquanto os especialistas procuram desvendar as causas e identificar os efeitos desse fenômeno, quem está dentro percebe que há uma crise interna entre os evangélicos no Brasil, agravada pela eleição do atual presidente, Jair Bolsonaro que, mesmo sendo católico, se identifica com evangélicos afeitos à política partidária, mesclando neopentecostais, pentecostais e calvinistas. Essa aproximação com os evangélicos surge, provavelmente, como consequência do seu terceiro casamento, que foi com uma evangélica. No dia 12 de maio de 2016, Bolsonaro foi batizado no Rio Jordão, em Israel, pelo então presidente do PSC, Pr. Everaldo Dias Pereira, da Assembleia de Deus.

Essa prática de misturar política partidária e fé cristã tende a prejudicar a separação entre Igreja e Estado, confundindo poder temporal com poder espiritual, principalmente no Brasil que é considerado o país latino-americano no qual os evangélicos alcançaram a maior estruturação política e, ao que parece, almejam o poder.

Muitas práticas em andamento no plano político-religioso no Brasil apontam para sérios conflitos na questão da separação entre Igreja e Estado. Há grande probabilidade de acontecimentos semelhantes ao que ocorreu nos dias do Imperador Constantino quando publicou o famoso Édito de Milão no dia 13 de junho de 313. A frase, “In hoc signo vinces”, tradução latina do grego que significa “com este símbolo vencerás”, adotada por Constantino como lema, depois de ter dito que teve a visão de uma cruz luminosa com as letras gregas simbolizando o nome de Cristo, no dia 28 de outubro de 312. Daquela visão surgiu a frase que teria resultado na sua “conversão” ao cristianismo, transformando, por decreto, a Roma pagã em cristã.

Aqui no Brasil, como resultado do “evangelho da prosperidade”, já tem pastores ricos e abastados alistados entre os poderosos da revista Forbes. Agora, depois de uma campanha que decretou que o Brasil está acima de tudo, e Deus acima de todos, pode ser que o próximo passo seja proclamar não apenas o Evangelho da Prosperidade, mas, também, “O Evangelho do Poder Temporal”.

De certa forma, os números do IBGE, apontando o crescimento evangélico no Brasil, podem estar fazendo mais mal do que bem à pregação do Evangelho da Graça de Deus nesses dias proféticos de Laodiceia (Ap 3.14-21). Maranata!

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