Liberdade – o que é isso?

Carlos Moraes  »  novembro 2020

Editorial »

A definição do substantivo feminino liberdade é, “grau de independência legítimo que um cidadão, um povo ou uma nação elege como valor supremo, como ideal e, por extensão, a liberdade é um conjunto de direitos reconhecidos ao indivíduo, isoladamente ou em grupo, em face da autoridade política e perante o Estado; poder que tem o cidadão de exercer a sua vontade dentro dos limites que lhe faculta a lei”.

Filosoficamente, o conceito de liberdade, está associado à idéia do livre arbítrio, da vontade e do direito individual. Eticamente, a liberdade do indivíduo não pode prejudicar a liberdade do outro. A sensação de estar livre pode trazer, tanto segurança quanto insegurança. Depende da pessoa e da circunstância.

Na essência, liberdade pode se tornar um conceito utópico, quando avaliado dentro de diferentes culturas. Pode ser muito relativo avaliar se a pessoa que se diz livre, goza, de fato, de liberdade.

Quem se propõe lutar pela liberdade individual pode se tornar egoísta, contrastando com aquele que decide lutar pela liberdade de todos. Dependendo da intensidade da luta, poderá ser visto como um revolucionário.

De modo geral, em qualquer cultura, por mais diferente que seja o conceito e a compreensão de liberdade, as pessoas querem se sentir livres. Trata-se de uma sensação supra cultural que todos buscam. Cada indivíduo, declaradamente, ou não, luta pela própria liberdade.

Nesse período de pandemia, temos sido confrontados pela questão da liberdade, tanto individual, quanto coletiva. Até que ponto as autoridades podem interferir em nossa liberdade?

O conflito ora desencadeado tem muito a ver com liberdade, porque está no centro do debate político e econômico da globalização. A forma de lidar com a pandemia evidenciou o choque cultural, e os conceitos e princípios que regem as nações. Ficou evidente que, sem que haja flexibilização na conceituação de liberdade, os conflitos tenderão a crescer, pois não há mais como evitar alguma forma de globalização.

Devido à facilidade de ver o mundo através dos meios de comunicação de hoje, ficou evidente o choque entre a liberdade do querer e poder fazer e a inconveniência de fazer. Foi isso que, de certa forma, no primeiro século da era cristã, o apóstolo Paulo destacou: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Co 6.12).

No debate das sociedades contemporâneas, a tônica gira em torno da liberdade de expressão e manifestação. Dependendo do lugar e da ocasião, gera repressão legal, ou não. Assim, por mais nobre que seja a ideia de liberdade individual, ela precisa de limites para que a liberdade coletiva seja respeitada. Daí os conflitos que Paulo compreendeu e decidiu que, mesmo livre para fazer o que quer, não faria o que julgava ilícito. Em última instância, respeitar limites não significa perder a liberdade. Ouvir um “não” ou ver uma manifestação contrária ao que creio e quero, não tira a minha liberdade. Crianças que crescem sem ter que obedecer ao “não” dos pais, se tornam adultos com os quais ninguém quer conviver. Liberdade que isola o indivíduo do convívio social não é liberdade – é repressão e supressão da liberdade.

Se vale dizer que, “uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco”, acredito que a compreensão inadequada do que realmente seja liberdade, pode se tornar esse elo fraco, que destruirá a própria liberdade. A liberdade de transitar entre os iguais não é a liberdade ideal. O ideal é o convívio de diferentes que respeitam uns aos outros. Por isso, as sociedades livres, de fato, permitem que os iguais, seja por religião, ideologia, ou quaisquer outras formas de identidade, se reúnam como queiram e transitem nos mesmos espaços. A liberdade cria seus próprios conflitos. Como exemplo, podemos observar o choque brutal entre um vegano ateu que acredita ser crueldade recolher e comer ovos, ao mesmo tempo que aceita naturalmente o aborto de bebês humanos, e um cristão que come ovos e carne de animais abatidos, e acredita que o aborto não deve ser praticado. A partir do momento que essas crenças diferentes levarem ao conflito, por causa das afirmações contrárias, que fazem parte da liberdade coletiva forem impedidas, a liberdade individual estará em xeque e poderá acabar. Em outras palavras, o debate para convencer o outro sobre a sua crença, não pode ser impedido por lei.

As pessoas, em toda parte do mundo, geração após geração, sempre estarão batalhando pelo que acreditam ser liberdade. Acertarão e errarão, mas não acabará. Como cristãos, sabemos que a perda da liberdade verdadeira se deve ao pecado que provocou a queda, quando nossos primeiros pais, no Éden, deram ouvidos a Satanás que lançou a semente da dúvida sobre a palavra de Deus (Gn 3.1): “É assim que Deus disse? ”

O crente, genuinamente nascido de novo, está investido da capacidade de entender e, portanto, com a responsabilidade de viver, a verdadeira liberdade em um mundo multipolar com as mais variadas formas de entender a liberdade, pois sabe que há, de fato, uma liberdade verdadeira que não pode ser retocada nem removida porque vem do alto: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36). Essa liberdade sobrevive a todo conflito, inclusive às perseguições, sejam religiosas ou ideológicas.

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