Igreja, pão comido, pão desprezado

Mário Maracaipe  »   julho 2021

Davi declara no Salmo 53 a generalizada incredulidade e corrupção humana –  doutrina corroborada por Paulo a qual, séculos adiante, seria denominada de “depravação total” (Rm 3). No mesmo salmo, Jeová afirma ter um povo resgatado e salvo dentre os incrédulos filhos de Adão. A salvação dos resgatados tem uma fonte: o monte Sião, uma sinédoque de Israel (o povo do Salvador Jesus), cuja capital e Templo seriam ali estabelecidos (por Davi e Salomão respectivamente). O Salmo revela uma aparente contradição acerca da beligerante relação entre Israel (os resgatados por Jeová) e os demais povos: Israel é o pão disputado, devorado e destruído pelos inimigos de Jeová, revelando como o povo de Deus é o indispensável alimento para a preservação da vida dos seus próprios inimigos. Essa metáfora é excelente exemplo da relação da Igreja, o povo de Deus hoje, e as demais sociedades, nações e estados anticristãos.

A história corrobora a tremenda contribuição de Israel e da Igreja para a prosperidade, segurança e dignidade de todas as nações e povos que de alguma forma ou grau foram ou são ligados à Israel ou à Igreja. Israel ainda não sendo nação foi a causa da prosperidade egípcia, bem como das nações vizinhas que prosperaram sob Salomão. Babilônios, medo-persas, e gregos foram igualmente abençoados por Jeová devido à sua relação com Israel. Literalmente Israel lhes serviu tanto de pão que abençoa quanto foi destruído por aqueles que abençoava. Destaque especial para Roma que se serviu tanto de Israel quanto da Igreja, ora sendo algoz, ora sendo protetor. Todas essas nações eram impérios cruéis, regimes totalitários e anticristãos.

A Igreja, a partir do quinto século d.C. começou a mesclar-se nas e com nações, césares, czares e tantos outros reis e imperadores. Em todo o tempo, em maior ou menor grau, a Igreja proclamava o Evangelho, sendo abençoadora e necessária, como o pão – ora protegida, ora preterida. Com a Reforma do séc. XVI as nações beneficiaram-se da liberdade dada à Igreja para proclamar o Evangelho, promovendo assim uma prosperidade, liberdade e dignidade desconhecidas até então. O mundo alimentava-se da Igreja sem deixar de persegui-la aqui e acolá. A mais poderosa nação até o momento é fruto direto da relação com a Igreja, o pão que a Europa comeu e posteriormente desprezou e destruiu. O Salmo 53 nos ensina assim que cada cristão, membro do corpo divino, eterno e invencível chamado Igreja, deve entender que sua natureza é ser pão para alimentar, para dar vida e prosperidade ao mundo, sua sociedade e nação de sua geração, não importa se há aceitação, favorecimento, desprezo ou perseguição.

Infelizmente muitos cristãos esquecem-se que são pão e, ignorando sua natureza e chamado, unem-se aos inimigos de Deus e da Sua Igreja, militando não mais pelo Evangelho do Pão da Vida, mas sim pelas venenosas ideologias, valores e ética dos filhos de Adão (sejam da esquerda, direita ou do centro) e assim, deixando de ser o bendito pão, degeneram-se em inimigos devoradores de si mesmos, como acontecera com Israel que, ao desprezar o pão que lhe sustentava, “cuspindo no prato que comeu”, foi rejeitado e envergonhado pelo Deus que é o verdadeiro e eterno Pão da Vida humana, Jesus Cristo. Desviaram-se todos! (Sl 53.3-5; Jo 6).

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