Hamartia pros thanaton, o pecado para morte

Fabiano Almeida  »   Ponto de Vista | janeiro 2022

Os atentos leitores das sagradas Escrituras encontram na segunda epístola do apóstolo Pedro duas constatações as quais devemos dar ouvidos. A primeira delas é que encontramos nas Escrituras verdades espirituais reveladas a nós “… entre as quais há pontos difíceis de entender”. Aqui Pedro se referia diretamente as epístolas do apóstolo Paulo, porém reconhecia que tal questão está presente em outras porções da revelação de Deus. A segunda constatação de Pedro era o uso inadequado destas passagens das Escrituras “que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pedro 3.16), fato comum não somente no contexto histórico de Pedro como também em nosso tempo.

Entre as passagens bíblicas “difíceis de entender” referidas por Pedro devemos incluir uma das passagens da primeira epístola do apóstolo João onde ele diz “Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore. Toda a iniquidade é pecado, e há pecado que não é para morte” (1 João 5.16,17). O que seria o “pecado para morte” referido por João nesta passagem? Faremos bem em examinar está verdade.

Entre as interpretações correntes deste texto encontramos aquela que reconhece que o pecado aqui citado seria o cometido pelos mestres gnósticos ao rejeitar o correto ensino sobre a pessoa do Senhor Jesus, o que não nos fornece luz suficiente quanto ao pleno entendimento do ensino de João. Há também aqueles que defendem que o “pecado para morte” aqui referido seria o pecado contra o Espírito Santo citado em Mateus 12.31,32, o que em sentido algum se aplica ao ensino de João. E ainda podemos citar a doutrina romanista dos pecados mortais (para os quais não haveria perdão e seriam muito difíceis de expurgar) e pecados veniais (facilmente expurgados através de algum ritual), como um exemplo da distorção das Escrituras referida pelo apóstolo Pedro.

Uma forma segura de chegarmos ao entendimento desta passagem está em compreender qual aspecto do pecado está em foco neste ensino de João, verificando quais os casos onde realmente o pecado era punido com a morte do pecador no Velho Testamento. No livro de Números encontramos uma diferenciação entre os pecados cometidos por ignorância e os pecados cometidos temerariamente (conscientemente), assim descritos por Moisés “E, se alguma alma pecar por ignorância, para expiação do pecado oferecerá uma cabra de um ano…, mas a pessoa que fizer alguma coisa temerariamente, quer seja dos naturais quer dos estrangeiros, injuria ao Senhor; tal pessoa será extirpada do meio do seu povo” (Números 15.27,30). Desta forma, reconhecemos que os pecados punidos com a morte eram cometidos de forma consciente de que aquela atitude era condenada pela lei ou por uma ordem direta e específica por parte de Deus. Um exemplo conhecido de alguém que conscientemente pecou contra o Senhor e que conscientemente procurou encobrir sua transgressão, sendo punido com a morte é Acã, citado em Josué capítulo 7, que custou não somente a sua vida, como também a de sua família, revelando a cumplicidade deles neste fato. A mesma questão da consciência do que se está cometendo pecado e o encobrindo, negando-se a arrepender-se, se aplica ao rei Davi quanto ao adultério e homicídio contra Urias. Davi era consciente tanto do seu pecado como das artimanhas pelas quais procurou encobri-lo aos olhos do Senhor e dos homens. Davi sofreu as duras consequências físicas, emocionais e espirituais do pecado, mas foi poupado da morte por meio do arrependimento e confissão de seu pecado.

A mesma conjunção de consciência do pecado cometido associado a decisão de permanecer em pecado é encontrada no Novo Testamento. Ao instruir a igreja quanto a celebração da ceia do Senhor, Paulo adverte aos salvos a respeito da seriedade desta celebração ao exorta-los “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1 Coríntios 11.28,29). Entenda que em Cristo todos os salvos foram feitos dignos da comunhão a mesa do Senhor, porém a atitude de encobrir seus pecados, negando-se a confessa-los e abandona-los, faz com que participem de forma indigna desta celebração. No verso seguinte o apóstolo expõe os graus de disciplina aplicados a não observância deste mandamento “Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem” (1 Coríntios 11.30). O negar-se a abandonar pecados conhecidos levará o Senhor a disciplinar seus filhos através das consequências da fraqueza espiritual, o que, não surtindo efeito, poderá se agravar a doença física, o que também não surtindo efeito, a morte física. Esta verdade é ilustrada no exemplo narrado no capítulo 5 de 1 Coríntios, onde a imoralidade praticada por um homem não era reconhecida por ele e nem mesmo pela igreja. A sentença do apóstolo neste caso é direta “Seja, este tal, entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” (1 Coríntios 5.5). Isto significa que aquele homem perderia a proteção de viver em comunhão com a igreja e pagaria com sua própria vida por permanecer conscientemente em seu pecado, negando-se a arrepender-se, o que sabemos não ocorreu, uma vez que houve arrependimento, como revelado em 2 Coríntios, porém em nada isso afetaria a sua condição de salvo em Cristo.

Desta forma compreendemos que o “pecado para morte” referido pelo apóstolo João em sua primeira epístola trata da condição de um salvo em Cristo que, mesmo após advertido pela igreja, nega-se a arrepender-se e abandonar a prática deste pecado, revelando sua obstinação em não se abrigar na promessa do Senhor de que “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” (1 João 1.9). Esta condição é de tal forma grave que João adverte a igreja de que “Há pecado para morte, e por esse não digo que ore”, ou seja, ao constatar que um salvo adotou esta atitude, negando-se ao arrependimento, será inútil interceder por tal pessoa, uma vez que ela escolheu se posicionar em aberta oposição a autoridade de Deus.

Reconhecendo estas verdades, é importante que entendamos de forma bíblica como a igreja local deve agir para com aqueles que decidem conscientemente permanecer em seus pecados. Primeiramente reconheçamos que o princípio bíblico é que a igreja faça o possível a fim de restabelecer o salvo em pecado, demonstrando amor e preocupação com sua situação, como nos orienta o Mestre “Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão” (Mateus 18.15), o que deve ser feito levando em conta sua condição de irmão em Cristo, como Paulo expõe aos tessalonicenses ao dizer “Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão” (2 Tessalonicenses 3.14,15).

Porém, se um salvo decide conscientemente, após ser advertido de seu pecado, não confessar nem abandonar sua conduta, o que deve à igreja fazer? Primeiramente, reconheçamos a orientação direta do Senhor Jesus ao dizer “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano” (Mateus 18.17). Encontramos nas epístolas do Novo Testamento a orientação quanto às situações onde esta verdade deve ser aplicada, começando por salvos em Cristo que conscientemente vivem de forma desordeira, como foi o caso dos tessalonicenses que se negavam a trabalhar a fim de gerar seu próprio sustento “Mandamos-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu” (2 Tessalonicenses 3.6). Também aos salvos em Cristo que causam divisões em meio a igreja, como citado na epístola aos romanos “E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles” (Romanos 16.17). Da mesma forma a salvos em Cristo que vivem em práticas morais reprovadas pelas Escrituras e que se negam a abandona-las, “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Coríntios 5.11). Devemos reconhecer que esta ação visa realçar a responsabilidade desta pessoa, faze-la perceber a gravidade de seus atos e leva-la ao arrependimento.

Portanto, cabe a cada salvo manter-se alerta quanto as danosas consequências do pecado em sua vida, levando em consideração a exortação do Mestre quanto a malignidade do pecado, “Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mateus 5.29,30).

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