“Faça-se a tua vontade… ”

Jenuan Lira  »   dezembro 2021

A oração faz alguma diferença quanto à vontade de Deus? Se Deus é soberano, como ensina a Sua Palavra, será a súplica do justo realmente eficaz? Em Isaías 14:24, está escrito: “Jurou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e, como determinei, assim se efetuará. ” Nesse mesmo capítulo, no verso 27, lemos que as determinações do SENHOR não podem ser invalidadas, pois, quando o SENHOR dos Exércitos estende a Sua mão, “quem, pois, a fará voltar atrás? ” Tais palavras não seriam uma declaração patente de ineficácia da oração?

A soberana vontade de Deus

Não há dúvidas de que a Bíblia ensina que a soberania de Deus é completa e definitiva. Jó expressou isso claramente ao afirmar: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2). Deus tem planos, e eles não podem ser frustrados. Ou seja, as orações mais piedosas não podem modificar aquilo que o SENHOR estabeleceu. Os planos infalíveis de Deus fazem parte do que chamamos de a vontade abrangente do SENHOR, que está ligada aos Seus decretos absolutos e eternos. É nesse sentido que a vontade de Deus engloba todas as coisas, boas e más, incluindo tanto a rebelião dos homens quanto a maldade planejada e executada pelo Maligno. É por isso que José, recapitulando a covardia dos seus irmãos, afirmou com propriedade: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o intentou para o bem, para fazer, como é agora, que se conserve muita gente em vida” (Gênesis 50:20; TB 2010). Considerando o ensino bíblico acerca da vontade abrangente ou soberana de Deus, alguns se desanimam com a oração, achando que orar é um mero ritual religioso incapaz de fazer qualquer diferença na nossa realidade. Por isso, dizem para si mesmos: o que vai ser será, quer oremos, quer não. O raciocínio parece correto, contudo, se a pessoa analisa essa conclusão à luz das demais Escrituras, logo se encontrará em um grande dilema, pois a Bíblia também declara que “… muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5:16).

A vontade compassiva de Deus

Quando olhamos para a vida e os ensinos de Jesus, aprendemos algumas lições importantes que nos podem ajudar a compreender o dilema entre a vontade de Deus e a eficácia da oração. Jesus conhecia muito bem a realidade inegável da soberania de Deus, todavia isso não anulava Seu fervor na oração. O fato de Deus, em Seus decretos, já haver determinado quem seriam os 12 apóstolos, não O desmotivou a passar a noite orando antes de escolher o grupo. Será que aquela noite de oração foi apenas um ineficaz ritual religioso? Na conhecida parábola do juiz iníquo, o SENHOR nos ensina a não ficar conformados com a “vida como ela é”, ao contrário, mostra que devemos lutar contra a injustiça incessantemente, manifestando nosso inconformismo com aquilo que fere a justiça e a santidade de Deus. Para participar desse combate, devemos obedecer ao mandamento de “orar sempre e nunca esmorecer” (Lucas 18:1). Na parábola, a viúva não desiste, pois acredita que sua insistência pode fazer real diferença em conter o avanço do mal que a ameaça. Claramente, a injustiça do juiz seria um aspecto da vontade de Deus que podemos chamar de “vontade compassiva do SENHOR.” Esse aspecto da vontade de Deus diz respeito aos desejos do Seu coração, aquilo que O agrada e O glorifica. Essa vontade compassiva, diferentemente da vontade abrangente ou soberana, nem sempre é cumprida. Na verdade, em nossa era, a vontade de Satanás é realizada com muito mais frequência do que a vontade compassiva de Deus. Assim, podemos dizer que, em determinado aspecto, a vontade de Deus não é inevitável e, portanto, pode ser frustrada. Se a vontade de Deus, em todos os sentidos, fosse sempre cumprida, não teria nexo o SENHOR Jesus, na oração modelo, em Mateus 6:10, nos ensinar a pedir: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu.” Para que essas palavras tenham um significado real, temos de concluir que há um aspecto no qual a vontade de Deus não está sendo feita, e, se queremos vê-la cumprida, precisamos orar por isso. É aqui onde a oração se mostra eficaz sem ferir os decretos do SENHOR. Sem dúvida, nesse assunto, sempre teremos perguntas para as quais não temos resposta. Contudo, nossa incapacidade de desvendar os segredos de Deus não nos deve levar a rejeitar a revelação bíblica. Assim, juntando todas as peças, podemos afirmar que Deus, em Sua soberania e graça, determinou que a oração seria essencial para que Sua vontade compassiva fosse feita no mundo. A oração é o meio pelo qual praticamos uma “justa rebelião” contra o reino das trevas que, em geral, prevalece na presente era. Jesus não nos deixa em dúvida quanto à eficácia da oração. Por não entendermos os diferentes aspectos da vontade de Deus, perdemos interesse na oração, achando que a soberania de Deus deve ser aceita como mero fatalismo determinista. O destemido missionário russo Peter Deyneka (1897-1987), fundador da missão Slavic Gospel Association, viajou pelo mundo promovendo encontros de oração em favor da liberdade do seu povo. Seu lema era: “Muita oração, muito poder; pouca oração, pouco poder.” Sem dúvida, ele estava certo!

Lutando para que a vontade compassiva de Deus seja feita

Quando oramos pedindo que a vontade compassiva de Deus seja feita, devemos interceder, por exemplo, pela salvação dos perdidos. Deus não deseja “que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pedro 3:9). Infelizmente, como sabemos, esse querer de Deus é frustrado na vida de muitos. Nesse sentido, é bom nos lembrarmos do exemplo do SENHOR Jesus que, mesmo sabendo da firme decisão dos judeus de rejeitá-l’O (João 5:40), não deixava de pregar e orar pela salvação dos Seus oponentes (Lucas 13:34). Essa mesma disposição vemos no apóstolo Paulo, em Romanos 10:1: “Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles são para que sejam salvos.” Outro aspecto em que devemos batalhar em oração para que se faça a vontade de Deus diz respeito à nossa consagração ao Senhor (Romanos 12:1-2). Nosso coração rebelde é sempre inclinado a resistir à obra do Espírito Santo (cf. Atos 7:51). Por isso, devemos ser perseverantes na oração (Romanos 12:2). A oração também é peça-chave para o progresso da obra missionária. Jesus nos ordenou rogar ao SENHOR da seara, pedindo por mais trabalhadores (Mateus 9:38). O apóstolo Paulo pedia que os irmãos de Roma lutassem com ele em oração (Romanos 15:30). O verbo lutar, nesse versículo, poderia ser traduzido como agonizar, esforçar-se até à exaustão. Jesus e Paulo entendiam que a oração é eficaz para o progresso missionário.

Conclusão

Em nossos dias, o mundo resiste fortemente à vontade Deus. Por essa razão, devemos batalhar em oração pedindo: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu.” Não sabemos nem precisamos explicar todas as coisas. Contudo, se queremos andar conforme o que já alcançamos, (Filipenses 3:16), devemos enfrentar o mal com a poderosa arma da oração, certos de que “… muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5:16).

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