Duas mães e um caixão

Radar Geral  »  março 2021

Ministrei na quadra 76, onde são sepultadas as vítimas por causas gerais ou indeterminadas. É o local fixo da tenda maior, que nos dá uma estrutura melhor (quando não chove) para realizar o trabalho de consolo. É onde temos o maior fluxo de sepultamentos também.

Quando cheguei, os colegas estavam se preparando para sepultar uma pessoa morta por quase trinta tiros. Havia um clima de dor, olhares de revolta e desejo de vingança no ar. Ao me inteirar da situação, entreguei bíblias para os membros da família, ministrei sobre “minha é a vingança diz o Senhor” e os orientei a entregar tudo nas mãos de Deus e seguir a vida em comunhão com Deus. Oramos juntos e seguimos para o sepultamento.

Ao voltar para tenda, havia uma vítima de suicídio. Uma jovem de vinte anos estava no caixão, e duas mães chorando. Ambas desoladas. É aquele tipo de sofrimento que somente as mães entendem completamente. E mesmo vendo, só podemos imaginar essa terrível dor, que vem das entranhas e das profundezas da alma.

Sem saber, conversei primeiro com a mãe biológica. Ela entregou a sua filha ainda no hospital, e só se reencontraram no cemitério. Ela conhecia os extremos da vida da filha (o nascimento e a morte), mas desconhecia a sua história de vida. Queria a resposta para o porquê da decisão extrema da filha. Disse-me, com os olhos marejados e voz trêmula: “se eu não tivesse dado a minha filha, talvez essa história fosse diferente”. Havia dor e remorso em suas palavras. Entreguei-lhe uma bíblia, falei sobre o perdão de Deus, e oramos.

A pedido dela, da mãe biológica, conversei com a outra mãe, a de criação. Cuidou da jovem desde o hospital. Era a sua única filha. Quando conversamos, ela estava debruçada sobre o caixão olhado o rosto da filha pelo vidro. Disse-me, olhando para a mãe biológica: “Aquela mulher me entregou a filha viva, e estou devolvendo morta. Eu fiz o meu melhor, mas não foi o suficiente”. E chorava copiosamente. À beira da sepultura, uma senhora testemunhou da mãe de criação: ”ela deu tudo do melhor pra essa menina”. Mesmo assim, a jovem se envolveu com as más companhias, com as drogas, com o mundo do crime, e por fim, precipitou-se.

As duas mães estavam juntas mais uma vez, em circunstâncias completamente diferentes. Antes, celebravam a vida e tinham esperança de dias melhores para si e para a criança. Agora, estavam desoladas e marcadas por uma tragédia. A dor da perda, o sentimento de culpa, e o remorso as atormentava. Estavam em grande sofrimento.

Após o sepultamento, pedi que me acompanhassem até uma sepultura que estava noutro cemitério. Elas acharam que íamos sair do local. Mas as levei até o sepulcro vazio. Mostrei o que aconteceu três dias após a morte de Cristo no Calvário e como os feitos e efeitos do sangue de Cristo perduram. Tive muito trabalho e cuidado para guiá-las para fora das sepulturas em que estavam. Mas é o Espirito que convence para o Reino. Elas receberam bíblias, orientação espiritual, oração, e as encaminhei para igrejas próximas de suas casas. Vão precisar de muita ajuda ainda para superarem esse grande trauma.

O dia foi marcado por várias histórias tristes que nos levam a sérias reflexões. O que estamos fazendo das nossas vidas? Como podemos ser mais úteis aos outros e a Deus? Estamos fazendo o nosso melhor para que o nosso lar seja um lugar seguro para os nossos filhos? São questões que precisamos responder enquanto temos tempo e oportunidade.

Antes de terminar, independente da sua situação, gostaria de deixar alguns conselhos:

1. Em hipótese alguma, se suicide. O suicídio não resolve problemas e nem alivia a dor. Ele só encerra as possibilidades de solução e abrevia o juízo divino sobre a própria pessoa.

2. Se você tem pensamentos suicidas, procure ajuda imediatamente. De preferência, ajuda profissional e espiritual. Quem está do lado de fora de uma tormenta tem uma visão melhor de como encontrar a saída.

3.  Se o sentimento de culpa encontrar guarida em seu coração, lembre-se que Jesus morreu para perdoar pecados e salvar pecadores. O sangue dele purifica a vida de todo aquele que crê.

4. Se você perdeu algum membro da sua família, agradeça a Deus pelo tempo que lhes foi dado. Eu passei dez anos pensando na morte de meu pai, quando deveria ter vivido em gratidão pela vida que Deus nos permitiu ter. Lembrar da vida de alguém que morreu é melhor do que viver da morte de alguém que viveu.

5. Lute pela vida e pela salvação dos seus filhos e de sua família.

Que Deus abençoe a sua vida e te livre de todo mal.

.

_______________________________________________________________

Francimar Pontes Soares, autor deste relato, éPastor da Igreja Batista Liberdade Central, em Manaus AM e, até o momento do fechamento desta edição, ele já havia participado de mais de três mil sepultamentos no Cemitério Público N. S. Aparecida no Bairro de Tarumã, na capital manauara, desde o início da pandemia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *