“Desigrejados”, o que poderemos perder e o que aprender?

Redação JA  »   julho 2021

“Desigrejados” tem sido um dos temas mais ventilados pelas lideranças das igrejas em praticamente todas as denominações evangélicas. Trata-se de um fenômeno que está na pauta de muitas igrejas que perderam membros que se tornaram “desigrejados”. A maioria dos líderes das igrejas locais tem alguma história para contar sobre membros que se tornaram “desigrejados”.

No passado, as perdas de membros tinham duas principais explicações: Afastamento da fé e mudança para outra igreja, ou denominação. Atualmente a impressão que temos é que todos que perdemos se tornaram “desigrejados”.

Em uma definição simples, “desigrejado” é uma pessoa de abriu mão do vínculo de membresia com sua igreja local, por variadas causas alegadas, e decidiu viver um cristianismo solo.

O que é impressionante, no entanto, é o explosivo número de “desigrejados” que cresce a olhos vistos. Por outro lado, apesar de muito se falar sobre eles, pouco tem sido feito para compreender esse crescimento.

Olhando para os números, não há como não perceber que se trata do movimento que mais cresce no meio evangélico brasileiro nas duas últimas décadas. De acordo com o último censo do IBGE, em 2010, o número de cristãos que se declarava sem vínculo denominacional passou de menos de um milhão no ano 2000, para quase 10 milhões em 2010, registrando crescimento de 780%. Como o censo do IBGE está atrasado, pois deveria ter sido realizado em 2020, o que temos atualmente são estimativas alarmantes, que, aliados a fatores causados pela pandemia, pode assustar ainda mais no próximo censo que deverá ser realizado em 2022.

Neste texto, não temos o propósito de resolver o problema e nem mesmo apontar soluções. Pretendemos lançar a semente para um debate mais assertivo antes que as igrejas em nosso meio sejam afetadas, pois, de certa forma, as igrejas batistas de linha conservadora ainda não estão sentindo o impacto desse fenômeno de modo tão alarmante como no geral. Mas, sem dúvida, precisamos nos preparar e, ao mesmo tempo, começar a tirar lições sobre o que podemos aprender com o que está ocorrendo. Para debatermos o tema, é necessário observar todos os aspectos, tanto do lado dos “desigrejados”, quanto dos “igrejados”. Vamos por partes, colocando algumas observações para reflexão e debate.

Primeira – O fenômeno dos “desigrejados” tem muito a ver com as novas concepções de igreja, que abriram mão das formalidades tradicionais, optando por cultos informais que priorizam relacionamentos. Por essa razão, boa parte dos desigrejados, não romperam definitivamente com a ideia de congregar, pois participam de cultos em diversas igrejas, sem, no entanto, se envolverem na membresia formal. Parece que apenas não querem compromisso.

Segunda – As razões alegadas pelos “desigrejados” são muitas e precisamos observá-las atentamente: insatisfação com desvios teológicos, escândalos financeiros, divergências políticas e ideológicas, líderes manipuladores ou centralizadores, discurso hipócrita de líderes que não vivem o que pregam, superficialidade de conteúdo na pregação e legalismo cultural, entre outras.

Terceira – Há “desigrejados” que não estão apenas decepcionados com a igreja que frequentavam. Eles se tornaram ativistas e estão em uma cruzada para que todos sejam como eles. Estão em pé de guerra contra a igreja e a atacam abertamente. Esse são perigosos, pois para os tais, o alvo é o fracasso total das igrejas organizadas. Certamente não se darão bem, pois, na sua decepção com a forma, passaram a acreditar que só se pode encontrar Deus fora da Igreja.

Quarta – Do ponto de vista de que estejamos na reta final da dispensação da Igreja e as características mais acentuadas são aquelas de Laodiceia (Ap 3.14-22). Vemos base razoável para o descontentamento com as igrejas locais, mas o Senhor está insistindo em bater à porta (Ap 3.20).

Quinta – Por ser, ao mesmo tempo, um organismo, e ter que cumprir formalidades legais de uma organização com CNPJ e prestação de contas ao governo, a igreja em alguns momentos, parece priorizar mais o seu papel institucional, como organização jurídica, e falhar nas suas funções de Corpo de Cristo.

Sexta – Além da confusão entre organização e organismo, vemos também, a preocupação excessiva por parte de alguns membros das igrejas que passam a defender mais a tradição denominacional do que os valores e princípios cristãos. E quando a igreja local é parte de uma denominação estruturalmente forte, as formalidades organizacionais são ainda mais exigentes. Pode ficar parecendo mera religião.

Sétima – Mesmo os mais conservadores entre nós, já ponderaram sobre o fato que a igreja vive um momento de grande tensão que exige reformulações e readequações à nova realidade, principalmente no que tange à visão de mundo contextualizada, sem permitir que a forma estremeça a essência da Igreja.

Oitava – Nós que defendemos a congregação regular como condição fundamental para o exercício da vida cristã cremos que o contexto bíblico aponta para a necessidade do culto e da adoração coletivos. Essa constatação está documentada desde o livro de Atos até hoje, sem interrupção em toda a história da Igreja.

Nona – Na prática, não há a menor base para os defensores do cristianismo solo, pois todos os aspectos relacionados à prática eclesial têm a ver com o coletivo, a mutualidade na prática dos dons, a prática do perdão e da disciplina, e no próprio cumprimento da missão da Igreja.

Décima – Há, em meio ao debate sobre os “desigrejados”, alguns analistas que enxergam uma nova reforma ligada, não tanto à teologia em geral, mas à eclesiologia. A análise tem a ver com o desgaste que haveria na forma de ser das igrejas. Nesse momento, de modo especial, devido ao que vem ocorrendo durante a pandemia e o avanço das comunicações, a situação favorece ainda mais aos que advogam as mudanças na forma. Para esses “desigrejados reformadores”, o avanço seria acabar com a ideia de grandes igrejas e multiplicar pequenas congregações nas quais as práticas neotestamentárias seriam restauradas. Nesse mesmo projeto, vem as mudanças proporcionadas tanto para as igrejas, quanto para a obra missionária que passará a ser praticada com as ferramentas que estão sendo disponibilizadas pelo avanço tecnológico, inclusive aquelas que possibilitam a comunicação sem a necessidade do aprendizado de línguas. Há muita tecnologia sendo desenvolvida que poderá ser incorporada às estratégias das igrejas.

Para terminar, quero dizer que a discussão em torno dos “desigrejados”, até agora, parte do princípio de que os tais estão errados ao adotar uma postura de afastamento como desviados e até hereges, porque deixaram de frequentar as reuniões regulares da igreja. Mas, se não tivermos coragem para analisar os motivos que os levam a “desigrejar-se”, poderemos incorrer em grande erro, e perder a oportunidade de aperfeiçoar nossa forma que, contextualmente, não pode ser engessada.

O conteúdo deste texto deve créditos de leitura às seguintes fontes:
Desigrejados: novos dilemas da eclesiologia (Tiago Chagas).
Desigrejados (Daniel de A. Durand.)
Os sem Igreja (Nelson Bomilcar)
Desigrejados (Idauro Campos)
Os desigrejados – Artigo (Augustus Nicodemus Lopes)

10 respostas para ““Desigrejados”, o que poderemos perder e o que aprender?”

  1. Luciana Pelho Gonçalves disse:

    Sugiro o resgate da visitação pastoral, as ovelhas se sentem mais acolhidas e parte de uma família.

  2. FABIO REIS disse:

    Interessante o artigo e algo que precisamos estar atentos e nos preparando mesmo para não sermos pegos desprevenidos, são sinais dos fins dos dias.

  3. VALTER RIBEIRO NOGUEIRA disse:

    Artigo instigante que leva à reflexão. Entre as possíveis causas sem dúvida eu relaciono : o legalismo,pregações superficiais de auto-ajuda( o rebanho faminto do verdadeiro alimento da PALAVRA DE DEUS) ,o fato de muitos encararem as reuniões dominicais como entretenimento e portanto se faltar alguma atração resolvem procurar outro local para congregar. Muitos cultos cuja liturgia é muito previsível que parece uma missa católica, o fato que muitas igrejas só enfatizam a reunião aos domingos e quase não há comunhão e exercício dos dons espirituais durante a semana, pastores muito centralizadora e ditadores que não dão oportunidade para os demais usarem os seus dons espirituais, pouca ênfase no ensino da igreja a respeito de uma vida cheia do ESPIRITO SANTO. Naturalmente muitas igrejas chegaram ao ponto de possuírem muitos incrédulos e crentes carnais no rol de membros e a saída será um reavivamento bíblico. A igreja que precisa ser reavivada sem dúvida é aquela que está a viver bem abaixo do padrão do NOVO TESTAMENTO. Com a pandemia estes membros incrédulos e os crentes carnaisse acomodaram e não desejam mais frequentar estas igrejas. Os que são sinceros e estão com fome da PALAVRA DE DEUS se afastam em busca de alimento espiritual, à princípio indo em outras igrejas e não achando o que procuram se reúnem em casas com outros irmãos para o estudo da BÍBLIA e comunhão com os irmãos como ocorria na igreja primitiva. Alguns líderes conservadores afirmam que a saída para as igrejas do século 21 são reuniões em casas sem as formalidades burocráticas tradicionais. Um servo de DEUS de algumas gerações atrás afirmou : O culto onde CRISTO é a única atração é o mais difícil de ser frequentado pelas pessoas . As igrejas pós-pademia precisam se debruçar sobreo NOVO TESTAMENTO, que normalmente os conservadores afirmam que é a nossa única regra de fé e prática para a igreja local e repensar qual é a verdadeira essencia da igreja,pois a forma pode ser mudada de acordo com a orientação dada por DEUS. Eu acho que está reflexão deveria abranger também os seminários, pois assim como existe o fenômeno dos desigrejados na igreja local também há o fenômeno da ausência de alunos nos seminários. Em muitos seminários não há alunos suficientes para formar uma classe do primeiro ano. E muitos alunos abandonam o seminário antes de concluir o curso. Creio que há uma relação direta, ou indireta com o problema do desigrejados e com a decadência espiritual e doutrinária de muitas igrejas locais. VALTER RIBEIRO NOGUEIRA

  4. Ótima reflexão.
    Temos que olhar mais demoradamente sobre este assunto.
    Ontem pregamos sobre o seguinte tema:
    COMO DEUS ESTÁ VENDO A IGREJA NOS DIAS DE HOJE?
    Usei algumas passagens do Velho Testamento como Isaías cap.1.1 a 13/29.13 a 16 e Ezeq. 33.31 .
    Deus olhava a nação de Israel como rebeldes, pois, eram contrários aos princípios do Senhor.
    Depois trouxemos para os dias presentes e comentamos sobre cristãos que não querem vir a igreja local. Devido a Covid, mas os encontramos nos supermercados, farmácias, padarias , shoppings e restaurantes.
    Será que o vírus é tão inteligente que só escolhe as igrejas para contaminar?
    Fechamos com uma receita de bolo espiritual de Paulo, Efesios cap. 4.1 e 2/11 a 16.
    Comentamos que a igreja iniciante tinha Cristo como base central em suas reuniões. Ilustramos com a figura de um banco com quatro pernas, cuja base era Cristo e o assento a igreja.
    Atos 2.42:
    1- PERSEVERAVAM NA DOUTRINA DOS APÓSTOLOS, 2- NA COMUNHÃO, 3- NO PARTIR DO PÃO e 4- NAS ORAÇÕES.
    MUITAS IGREJAS DE HOJE NÃO TEM ALGUMAS DESTAS PERNAS QUE SUSTENTAVAM A IGREJA QUE FICAVA SOBRE A ROCHA, CRISTO.
    HÁ IGREJAS LOCAIS HOJE QUE NÃO POSSUEM NENHUMA DAS QUATRO.
    OREMOS PARA QUE VENHA UM REAVIVAMENTO QUE DEVE INICIAR COM QUEBRANTAMENTO, ARREPENDIMENTO DE PECADOS

  5. silvana rosa da silva siqueira disse:

    Não querem compromisso, e como tem muitas opções de igrejas tanto físicas como online não querem compromisso assim não precisam ter responsabilidade com nenhuma denominação e nem prestar conta da suas atitudes nem a pastores e líderes e desta forma podem viver sua iniqüidade confiante que quando pedir perdão Deus perdoa mesmo….

  6. Minha corrente visão sobre a “igreja” nos últimos séculos descrevo em meu novo canal (http://arautododeusunico.com)

  7. Pr. Mário Baio disse:

    Olá irmãos, tenho visto o problema que este movimento tem afligido as igrejas, até mesmo a igrejas de nossas denominações. O problema é muito mais sério e está muito mais perto do que pensamos.
    Sugiro a cada pastor estudar e informar suas ovelhas sobre o assunto.
    Humildemente me coloco a disposição dos irmãos para passar duas mensagens recentes que preguei em nossa igreja, que contém vários versículos bíblicos para fundamentar a igreja tradicional e desmarcar esse herético movimento moderno.
    Meu e-mail é
    pr.mariobaio@gmail.com

Deixe uma resposta para Dr. Mark Silveira Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *