Depoimento de um missionário

Redação JA  »   outubro 2021

O autor deste texto, preferiu manter-se no anonimato.

Eu não estava preparado para isso, não fui treinado para isso! O que devo dizer, o que devo fazer? Sinto muito, mas não sei a resposta. Estas são palavras que eu gostaria de não ter pensado, ou dito, e ainda assim quase se tornaram clichê. Muitas vezes me sinto culpado por não estar preparado para a situação em questão.

Fui criado no campo missionário, estudei missões, bíblia e teologia e sou filho de Deus por quase três décadas. Eu deveria saber melhor, certo? É preocupante perceber o peso que minhas palavras e ações têm no campo missionário. Para aqueles que estou evangelizando ou discipulando, sou o mais próximo, senão o único exemplo que eles têm do que significa ser cristão. O que faço e digo, intencional ou não, torna-se a prova de que minhas palavras são verdadeiras ou falsas. O que eu faço, intencional ou não, torna-se o exemplo que eles seguirão. As palavras que eu digo se tornarão sua teologia sistemática.

O peso dessa percepção pode ser paralisante às vezes. Em missões, fazemos nosso melhor para pregar o que é bíblico. O desafio que enfrentamos é retirar da mensagem os aspectos culturais que são endêmicos apenas à nossa denominação, sem privá-la da verdade ou de seu poder na vida dos crentes. Fazemos o nosso melhor para contextualizar, para que ensinemos e modelemos A Verdade bíblica de uma forma que seja relevante e reproduzível na cultura para a qual ministramos.

Mas isso nem sempre é fácil. Existem questões que nunca precisei estudar, existem desafios que nunca vi ninguém enfrentar. Algumas questões requerem apenas estudo ou revisão. Por exemplo, qual é o papel do livre arbítrio no processo de salvação por um Deus onisciente e onipotente? Ou como um Deus que não muda pode ordenar aos israelitas que eliminem completamente os cananeus, mas depois nos mandar amar nossos inimigos? Posso orar pelo meu cachorro doente? Algumas coisas nos lembram o quanto o mundo espiritual afeta o mundo natural e quão pouco o entendemos. Como amigos expulsando demônios.

E, mais recentemente, um dos crentes teve sonhos que se tornaram realidade. Ele me pediu conselhos para entendê-los, mas eu não tenho sonhos assim. Depois, há questões de cultura, tradição e obrigações familiares. Muitas vezes, a resposta para essas perguntas parece clara para mim, mas não sou eu que vou sofrer pela decisão de obedecer a Deus.

Um crente foi para a aldeia de sua família na montanha. Ele não participou dos rituais animistas, mas esteve presente e se alimentou da comida ofertada. Mais tarde se sentiu culpado por isso. Se ele não tivesse ido, ele poderia perder sua família e todo o sistema de apoio familiar que isso acarreta. É fácil dizer a ele que sua consciência sabia que não estava certo. Não é tão fácil encorajá-lo a arriscar perder sua família. Outro em nosso grupo teve a coragem de viver sua fé com ousadia e foi rejeitado anos atrás por sua família. Após anos de dificuldade, Deus o tem abençoado tremendamente.

Depois, há desafios legais. O governo não fornece certidões de nascimento ou de casamento. Assim, as crianças precisam de um certificado de batismo para se matricularem na escola, mas as igrejas protestantes não batizam crianças. Um crente em nosso grupo acabou de nos perguntar esta semana como ele pode simultaneamente honrar a Deus, se submeter ao governo e ser um pai zeloso para com o seu filho, quando a lei torna quase impossível fazer isso. Dois em nosso grupo estão pensando no futuro quando se casarem. Eles nos perguntaram o que fazer. Uma igreja protestante poderia dar-lhes uma certidão de casamento, mas o governo só reconhece as certidões de casamento católicas, e, de qualquer forma, suas famílias não permitirão que se casem em uma igreja protestante. Ele quer saber como pode honrar a Deus, sua consciência, casamento e sua família?

Outros crentes deste país se casam na igreja católica simplesmente para obterem o documento, outros por causa da pressão familiar, alguns optam até por uma cerimônia católica e protestante. Nós os encorajamos a serem ousados, honrarem a Deus e seguirem sua consciência. Mas temos que estar prontos para recebê-los e dar todo suporte se eles forem rejeitados.

Pode ser um desafio exemplificar As Escrituras, especialmente quando se faz oposição à cultura ou ao bom senso. Depois de ensinar sobre dízimo e doação, um participante pediu-nos ajuda financeira. Nós o ajudamos e nunca mais o vimos.

Depois de ensinar que devemos honrar, respeitar e nos submeter uns aos outros e ao governo, Covid-19 entrou no país. É difícil modelar submissão quando ninguém mais no país segue às regras do governo. É ainda mais difícil explicar aos jovens crentes porque as igrejas dos nossos países de origem estão tão divididas sobre essas questões.

Ser o modelo de comportamento cristão é uma grande responsabilidade. Que filmes assisto, que roupas uso para ir à igreja, desentendimentos com minha esposa, como gasto dinheiro, quanto ganho (sim, eles perguntam quanto recebo por mês), os impostos que pago, a forma como reclamo do governo, com que frequência eu os convido para minha casa, e muitas outras coisas podem se tornar o modelo que eles podem seguir por gerações.

Muitos dos exemplos que dei, o faço involuntariamente, por hábito. Preocupa-me que eles possam copiar minhas falhas, e não os sucessos do Espírito Santo. Depois, há os precedentes que estabelecemos. Eles simplesmente nos pediram para começarmos a ter Santa Ceia como um grupo. Uhu! Mas antes de nossa primeira comunhão, devemos decidir quem pode participar. Apenas membros? Apenas aqueles que foram batizados como cristãos? Apenas aqueles que fizeram uma declaração pública de fé? Como iremos, com amor, não de maneira desajeitada ou confusa, dizer aos nossos participantes católicos que eles não podem participar, porque ainda não tomaram a decisão de seguir apenas Cristo? Devemos permitir que as pessoas participem com base em suas próprias consciências? Ou devemos ter uma comunhão secreta onde não convidamos os outros? Eu poderia escolher a opção que considero melhor, mas isso abriria um precedente que será copiado inquestionavelmente e perpetuado. Em vez disso, apresentamos a pergunta a eles. Pedi-lhes que avaliassem As Escrituras, a cultura e seus amigos descrentes, para buscarem aquilo que primeiro honrará a Deus e, em segundo lugar, criará um ambiente de amor para aqueles que buscam a Deus.

Envolver novos cristãos na tomada de decisão pode ser um risco, como pedir a seus filhos que o ajudem a construir uma casa, mas se eles aprenderem a resolver problemas usando As Escrituras e o Espírito Santo, não precisarão mais de mim. Não estou preparado para isso. Eu não sei a resposta. Esses momentos de incertezas me forçaram a obedecer quando não era fácil, a confiar quando eu não entendia.

Ser um missionário é viver 1 Co 1. 26- 2: 5. Aprendi com relutância que Deus me escolheu não apesar de minhas falhas, mas por causa delas. Não estou preparado para isso, mas tudo bem. Deus vai fazer algo incrível e eu posso participar.

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