Credibilidade pastoral

Carlos Moraes  »   Editorial | março 2022

A credibilidade pastoral nunca foi tão contestada como atualmente, tanto dentro das igrejas quanto na sociedade. Essa contestação está relacionada à área pastoral e de liderança. Credibilidade, no caso do pastor, tem a ver com a relação de confiança ou desconfiança no que diz respeito às questões espirituais, éticas, morais e relacionais.

Uma pesquisa realizada pela Barna Research, nos EUA, constatou que menos da metade dos adultos estadunidenses, entre cristãos e não-cristãos, vêem os pastores como “muito confiáveis” quando se trata de lidar com assuntos espirituais. Como aval dessa constatação, a parcela de pastores que acredita que o público em geral os vê dessa forma segue na mesma proporção.

Outra pesquisa que questiona a confiabilidade e credibilidade dos pastores no EUA, foi divulgada pelo The Christian Post, mostrando que apenas 23% dos adultos estadunidenses, não cristãos, concordam que os pastores são confiáveis. Entre os cristãos, o número sobe para 31%.

Embora essa perda de credibilidade tenha sido identificada nos EUA, há indícios de que ela seja global. Mas vamos pensar apenas no que se refere a nós aqui no Brasil, onde a percepção e os sintomas dessa realidade já são visíveis, inclusive em relação à crescente desvalorização dos pastores.

Por estar sempre em evidência, o pastor é exposto à avaliação de todos, tanto dentro quanto fora do rebanho. Não tem como se esquivar. Sua vida, no dia-a-dia, tem que combinar com o que ele fala, revelando coerência e caráter, motivando ou desmotivando os observadores. Quem observa não está interessado em saber se existe pressão ou não. Se houve preparo adequado, ou não. Observam e julgam pelo que é visível.

Sem entrar mais a fundo nas considerações do porque isso ocorre, creio que devemos nos ater ao que se pode fazer para que não se perca a credibilidade. Se há o que fazer, devemos, pelo menos, tentar.

Do meu ponto de vista, a base do problema está vinculada à relação pessoal do pastor com Deus. Essa relação, que não é visível, trará aos olhos dos observadores o que nenhum carisma, conhecimento e capacidade de comunicação consegue trazer. Por essa razão, o pastor precisa fazer uma leitura correta do que o Senhor quer dele.

Como cristãos sabemos que, de modo geral, pastor ou não, o mais importante não é avaliar a força do inimigo. Já sabemos que ele é mais forte do que nós. A nossa força vem da sintonia com o Senhor. Poderemos ter a mesma segurança que o apóstolo Paulo teve ao dizer “posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fp 4.13), ou como no caso de Gideão que ouviu o Senhor lhe dizer: “Vai nessa tua força…” (Jz 6.14). O pastor só conseguirá credibilidade através da integridade quando houver a certeza de que o Senhor está perto dele e ele perto do Senhor.

A credibilidade do pastor pode ser resgatada ou mantida quando ele descobre a importância da humildade e dependência. Quando ele tem a sua motivação retroalimentada através da relação diária com aquele que o fortalece, pois será possível ver coerência entre o que ele diz e faz diante das pessoas. Essa autenticidade vai torná-lo aquilo que o Senhor quer, e não o que ele almeja ser.

Foi através do reconhecimento da própria vulnerabilidade pessoal de Paulo ao dizer “…quando sou fraco...” (2 Co 12.10) e de Gideão ao reconhecer sua fraqueza (Jz 6), que o Senhor passou a usá-los adequadamente. No pastorado é necessário reconhecer a plena dependência do Senhor para cumprir a demanda.

É importante reconhecer que os momentos de dificuldades são as melhores oportunidades para avaliar a sensatez e equilíbrio da liderança. Só podemos comprometer nossa credibilidade pelas nossas ações. As circunstancias podem levar-nos a agir de maneira que não gostaríamos, mas os erros pontuais que cometemos, devem servir de base para o aprendizado e amadurecimento.

Na longa história de Moisés, como libertador do povo de Israel do Egito, tudo começa com o seu erro ao matar um egípcio. Ali perdeu a credibilidade e teve que fugir. O processo de restauração foi longo até que ele compreendesse que as coisas de Deus devem ser feitas do modo de Deus.

Mesmo depois que tirou o povo do Egito, guiado pelo Senhor, Moisés teve que permanecer mais um terço de sua vida aprendendo a lidar com o povo enquanto era moldado por Deus. A credibilidade de Moisés diante do povo resultava do que Deus fazia na sua vida na relação pessoal: “E viu Israel o grande poder que o Senhor exercitara contra os egípcios; e o povo temeu ao Senhor e confiou no Senhor e em Moisés, seu servo” (Ex 14.31). Por isso, ele chegou às fronteiras de Canaã, podendo passar o bastão para Josué. Morreu com credibilidade.

Diante da possibilidade de maior visibilidade e exposição em nossos dias, os riscos são maiores. É fácil contratar um especialista em marketing pessoal para construir uma imagem, mas não há como garantir que uma boa imagem, construída artificialmente, possa gerar credibilidade. Tem que haver caráter ilibado. Arrisco-me a dizer que, da mesma forma que a religiosidade farisaica era muito vistosa na efervescência religiosa dos dias de Jesus, com o povo vivendo “como ovelhas sem pastores”, o mesmo pode estar ocorrendo hoje no meio das nossas igrejas.

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