Brasileiros não querem religião influenciando decisões do governo

Redação JA  »  maio 2021

Os homens nunca praticam o mal de modo tão completo e animado como quando o fazem a partir de convicção religiosa” (Blaise Pascal 1623-1662)

Levantamento nacional, que acaba de vir a público, realizado pelo Instituto Paraná Pesquisas, mostra que, no entendimento da maioria dos brasileiros, a religião não deve influenciar nas decisões de governo. A pesquisa aponta que, 72,8% dos entrevistados disseram que “a religião não deve influenciar as políticas adotadas pelo governo”. Outros 22,1% acreditam no oposto, dizendo que “as decisões deveriam ter embasamento religioso”, enquanto 5,1% não quiseram ou não souberam opinar.

O levantamento, realizado sob encomenda da revista Veja, indicou ainda que os maiores percentuais dos contrários à influência da religião em decisões do governo foram registrados entre os entrevistados que têm ensino superior (75,8%), moradores do Sul (75,5%) e Sudeste (75,4%) e mulheres (74,2%).

Por outro lado, a maior fatia dos que entendem que a religião pode influenciar estão entre os moradores das regiões Nordeste (25,7%) e Centro-Oeste (25,7%), entre quem tem ensino fundamental (25,6%) e entre os homens (23,4%). As maiores discordâncias foram registradas entre os jovens de 16 a 24 anos (44,7%), mulheres (44,5%) e moradores do Nordeste (43,2%). Já as maiores concordâncias estão entre os homens (28%), moradores do Norte e Centro-Oeste (27,5%) e quem tem o ensino fundamental (26,2%).

Uma reflexão necessária

Tudo o que acontece com o povo, reflete um momento na vida do país. Essa pesquisa, de certa forma, tem muito a ver com o que tem acontecido entre as igrejas evangélicas. Depois da eleição de Jair Bolsonaro para a presidência, e o apoio por ele recebido de líderes evangélicos de várias denominações, a “religião” aproximou-se da política de tal forma, que algumas “pregações” misturam Bíblia com ideologia de modo tão natural que, para observadores desatentos, parece normal. Há pregações parecendo mais um discurso político do que uma exposição bíblica.

No caso do Presidente Jair Bolsonaro, o fato de ser ele casado atualmente com uma evangélica, e até ter sido batizado no Rio Jordão pelo Pr. Everaldo Dias Pereira, certamente o colocou em contato com lideranças denominacionais permitindo que percebesse a maior fatia do eleitorado evangélico. Ficou claro que a estratégia por ele adotada, visava essa aproximação, passando pelo slogan de campanha e a constante citação de textos bíblicos.

Ao longo de toda a história da Igreja já vimos o quanto é nocivo às liberdades individual e religiosa, essa mescla de religião com governo. Antes da Reforma Protestante o Catolicismo, em parceria com o governo, organizava cruzadas para “cristianizar infiéis muçulmanos” e a santa inquisição para “perseguir cristãos que não faziam parte do catolicismo”. Depois da Reforma, alguns líderes reformadores, também aliados a interesses de governos, continuaram perseguindo cristãos que não se alinhavam a eles.

Essa mistura entre Governo e Estado tem, atualmente, exemplos negativos nas repúblicas e monarquias islâmicas, tendo o Alcorão como base do governo. Do ponto de vista da lógica, querer uma nação governada pelo cristianismo, é retornar ao passado e repisar os mesmos caminhos que já foram trilhadas e não deram certo. Nenhuma nação pode querer antecipar o Milênio implantando um governo teocrático que, por mais que pareça belo, sabemos que não é aconselhável.

Como batista, defendo a total separação entre Igreja e Estado. Os batistas de fato, sempre procuraram pregar o evangelho sem imiscuir-nos nos governos de modo oficial. Essa posição nunca impediu que irmãos em Cristo participassem da política através de partidos devidamente organizados, concorrendo a cargos eletivos, tanto para o Executivo, quanto para o Legislativo. Muitos cristãos genuínos, através do testemunho e da influência, têm sido usados por Deus na aprovação de leis, até porque, se leis que contrariam os princípios cristãos forem aprovadas, teremos que optar pela “desobediência civil”, pois esse é o ensino bíblico para a Igreja.

Mas o que vem acontecendo ultimamente é um envolvimento tal, que tem criado até brigas ideológicas e inimizades dentro das igrejas e das famílias. Desde a última eleição presidencial, criou-se um clima de disputa que e não para de crescer, a ponto de alguns dizerem que chegou a hora de agir contra o que não concordamos. Mas, a mesma Bíblia que nos dá liberdade, até para participar da vida política, nos manda orar pelas autoridades constituídas e não agir contra elas. O que aprendemos com a igreja primitiva é que, mesmo frente a ameaças, temos que obedecer a Deus (1 Tm 2.1-2; At 4. 29-35; 5.29). Isso tem um preço que alguns não querem pagar.

Está na hora de procuramos entender, na prática, o sentido prático e amplo de “dar a César, o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mc 12.17).

3 respostas para “Brasileiros não querem religião influenciando decisões do governo”

  1. Esta pesquisa precisaria ser feita ao contrário: quantos brasileiros concordariam com a ingerência do governo na religião? Além disso, esta pesquisa foi tendenciosa, pois reconhece a força dos cristãos na hora do voto. Parabéns aos padres e pastores que estão gritando diante do perigo da perda de liberdade religiosa e, principalmente, à destruição da família e da vida. Impossível lutar por esses direitos sem se envolver na política.

    • Carlos Alberto Moraes disse:

      Como batista, defendo a total separação entre Igreja e Estado. Os batistas de fato, sempre procuraram pregar o evangelho sem imiscuir-nos nos governos de modo oficial. Essa posição nunca impediu que irmãos em Cristo participassem da política através de partidos devidamente organizados, concorrendo a cargos eletivos, tanto para o Executivo, quanto para o Legislativo. Muitos cristãos genuínos, através do testemunho e da influência, têm sido usados por Deus na aprovação de leis, até porque, se leis que contrariam os princípios cristãos forem aprovadas, teremos que optar pela “desobediência civil”, pois esse é o ensino bíblico para a Igreja.

      • Romulo disse:

        A separação entre Estado e Igreja significa um Estado laico e não uma igreja apática às leis que perseguem a nossa liberdade religiosa. Como instituição de um estado democrático de direito, a Igreja pode e deve se posicionar sempre. Não devemos defender este ou aquele político, mas sim ideias que defendem os valores bíblicos.

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