Blecaute de liderança

Carlos Moraes  »   Editorial | setembro 2021

Há eventos marcantes que promovem mudanças, porque fazem as pessoas mudarem o modo de pensar. Nas duas primeiras décadas deste século 21 dois eventos mudaram a maneira das pessoas pensarem. O 11 de setembro de 2001, na primeira década, e a pandemia do Coronavírus, na segunda.

A implosão das Torres Gêmeas nos EUA fez o mundo acreditar que não há limites para os que querem controlar as pessoas. A pandemia, demonstrou o que se pode fazer com um mundo de pessoas controladas.

Esses eventos afetaram diretamente as lideranças que foram enfraquecidas em as áreas, mas principalmente, na economia, na política e na religião. A nós, povo de Deus, esse enfraquecimento da liderança é altamente prejudicial, pois atinge o pastorado nas igrejas e os campos missionários. Antes mesmo da pandemia, já estávamos em busca de alternativas para a formação e reposição de novos líderes. Durante a pandemia, alguns morreram e outros, exauridos, desistiram da jornada.

Nas conversas com colegas, fica evidente que há questionamentos que mais parecem justificativas para uma possível retirada. Mesmo aqueles que nada dizem, dão a impressão de que há um grito silencioso na alma, pedindo socorro. A sensação de estar só, começa a deixar claro o porquê da proposta individualizada de Jesus para o fim dos últimos dias: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 2.20)

A própria falta de líderes provoca pressão sobre os poucos que existem. Uma pesquisa realizada pela Envisionar¹ no final de 2020, aponta que 63,7% dos pastores, estão com estresse alto, e a principal causa é o fato de se sentirem sozinhos sem ter um ombro para dividir as cargas.

Essa pesquisa tem muito a ver com o que estou dizendo, pois ela aponta para dois outros aspectos importantes. O primeiro é a pressão financeira sobre os que se dedicam ao ministério, pois a remuneração é sempre inadequada. Depois das finanças, o item de maior pressão é a formação de líderes, com o agravo da diminuição do voluntariado nas igrejas.

A título de reflexão, cabe a nós responder, de modo objetivo, duas perguntas: Porque essa diminuição drástica no interesse pelo pastorado e pela obra missionária? O que fazer para mudar essa situação? Não há respostas prontas para essas perguntas. Entrar pelo caminho dos “chavões” não ajuda em nada.

É fácil argumentar que as pessoas não querem assumir responsabilidades, mas é difícil enxergar que aquelas que assumiram, foram deixadas à beira do caminho quando feridas. Suporte e retaguarda devem fazer parte da delegação de funções.  Não é apenas uma questão de capacitação teórica e prática. As pessoas querem ser ouvidas e acolhidas.

Um argumento alegado para quem se recusa a assumir liderança na igreja é a falta de preparo adequado. Este é um problema de difícil solução, porque não temos preparadores bem preparados. Aquele que é chamado por Deus precisa ter alguém, também chamado, e melhor preparado que ele, para prepará-lo. Isso não se encontra facilmente. Algumas vezes os preparadores se tornam embaraço para quem busca preparo.

Geralmente os que estão melhores preparados para preparar outros, não têm tempo disponível para isso. Vivem sobrecarregados nos afazeres em seus ministérios. Tem conteúdo, experiência, mas falta tempo.

Tudo aponta para mudanças necessárias na forma de preparar líderes. Na educação em geral já houve adaptação adequada ao sistema hibrido de preparar profissionais. Nas igrejas, a relutância conservadora de sempre é a barreira. As novas tecnologias são caminhos que vieram para ficar. O ensino online, associado ao acompanhamento tutorial é a solução.  

Olhando pelo prisma da pandemia, que é um mal, podemos tirar lições e afirmar, sem medo de errar, que ela nos ajudou a perceber que o melhor caminho continua sendo aquele adotado por Jesus e Paulo que ensinava enquanto fazia. Essa é a essência do discipulado.

Antes que a falta de liderança leve ao caos de um blecaute, é melhor focar nas luzes da realidade presente deste mundo que já mudou.


¹ https://envisionar.com

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