A santidade no falar

Wagner Amaral  »   agosto 2021

Efésios 4.25-5.2

Quando lemos este texto vemos a aplicação do contraste que o autor faz de não mais vivermos como os gentios, na vaidade de nossos próprios pensamentos (4.17-19), mas, sim, na coerência com a vocação recebida no Senhor (4.1-3). O quadro geral apresentado pelo texto parece questionar os direitos que dizemos ter e que tanto nos incomoda e impulsiona à reação, quando retirados; e parece afirmar que nossos direitos, no sentido horizontal, em nossas relações com os homens, devem ser delimitados por nossa obrigação, no sentido vertical, em nossa relação com o Senhor. O estar em Cristo nos determina um novo conteúdo e uma nova forma de se viver – Somos movidos à santidade, à purificação, à mudança de vida (17-24). Dentre algumas diretrizes apresentadas no texto quero destacar a santidade quanto à fala. Como praticamos a santidade, adorando ao Senhor, quanto ao exercício do que falamos, como falamos e quando falamos?

Primeiro, não mentindo (25). A mentira é o distintivo do diabo. Em João 8.44 temos a palavra de Cristo, afirmando: “Vós sois do diabo, que é o vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”. É um real contraste para com a essência de Deus, que é a verdade. Cristo afirmou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”. Mentir não simplesmente revela um problema de caráter, como alguns gostam de amenizar, mentir revela proximidade com o diabo; revela identificação com ele; revela oposição a Deus em todos os aspectos e, aplicando as palavras de Cristo, quanto mais a pessoa pratica a mentira, mais ela fala do que lhe é próprio, à semelhança do diabo; mais se evidencia seu estado de perdição e distanciamento da salvação; considerando o contexto da carta, mais a pessoa se distancia do viver coerente com a vocação recebida e mais se aproxima do viver na vaidade de seus próprios pensamentos. E é incrível como a prática da mentira conduz a pessoa ao vício. Ela não somente multiplica a mentira para tentar manter a coerência, mas, torna-se insensível para com sua prática; deixa de se sentir incomodada e a consciência parece diminuir seu ímpeto em chamar a atenção para o pecado. Vemos a dinâmica da perdição narrada por Paulo nos versos 17-19: Movida por seus interesses e não pelos do Senhor; a pessoa mente, revelando ignorância quanto ao Evangelho; o que produz dureza e insensibilidade, conduzindo-a a repetição daquilo que provocará dissolução.

Pensando na questão dos votos, das alianças, do compromisso com o Senhor, Jesus Cristo afirmou (Mateus 5.37): “Em vosso falar, seja o vosso sim, sim e o vosso não, não. O que disto passar vem do maligno”.

Como praticamos a santidade, adorando ao Senhor, quanto ao exercício do que falamos, como falamos e quando falamos? Em primeiro lugar, não mentindo.

Em segundo lugar, não nos entregando à ira (26). Está aí outra identificação com o diabo (27). Em estado consciente, uma pessoa irada é a que mais se aproxima de alguém em estado de possessão demoníaca. O rosto distorcido; o olhar sanguinário; os gestos violentos; a voz anormal; a força exagerada; tudo o que revela descontrole e desejo de violentar o próximo. Por isso Paulo afirma: “Nem deis lugar ao diabo”.

O termo “ira” é comumente utilizado para expressar juízo; expressar a ação resultante do julgamento de Deus sobre a ação alheia; e parece ser exatamente a forma como Paulo faz seu uso aqui. Há espaço para indignação contra o pecado; mas, decididamente, não somos exortados à ira; pois, ela se dá em tom pecaminoso, devido a nossa condição natural. Alguns afirmam: “Mas Deus se ira e não peca”. Biblicamente afirmo: Deus, não o homem. Deus é perfeito e não pode pecar. O homem é imperfeito e sua essência é composta pela natureza pecaminosa, além de sua própria limitação como criatura. E em nenhum texto há a afirmação de que Deus tornou-se irado, como se perdendo o controle, saindo do que lhe é natural devido a sentimentos raivosos e cheios da vontade de revidar. Isto tornaria Deus tão pecador como nós.

Firmado no entendimento do AT, Paulo exorta a não se entregar a ira. Veja o próprio texto citado (Salmo 4.4): “Irai-vos e não pequeis; consultai no travesseiro o coração e sossegai”. A ideia contida no texto é a de quando assaltado pela ira, devido a um julgamento qualquer, devemos ponderar a realidade e sossegar o coração. É uma chamada à consciência de nossa limitada condição e à confiança no Senhor. Isso fica mais evidente quando lemos o verso seguinte (5): “Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor”. Outra versão diz: “Oferecei sacrifícios justos como Deus requer e depositai toda a vossa confiança no Senhor”. Diante da angústia provocada pelo pecado alheio, Davi volta-se para o Senhor e constata a urgência em confiar em Deus, deixando para Ele o juízo e a vingança. Isto nos faz lembrar das palavras de Paulo, citando, mais uma vez, as palavras de Moisés no AT: “Amados, jamais procurai vingar-vos a vós mesmos, mas entregai a ira a Deus, pois está escrito: ‘Minha é a vingança! Eu a retribuirei’, declarou o Senhor. Ao contrário, se o teu inimigo tive fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porquanto agindo assim amontoarás brasas vivas sobre a cabeça dele. Jamais te entregues ao mal como vencido, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12.19-21). Entregai o julgamento e suas consequências a Deus é a afirmação de Paulo.

A aplicação do que Paulo escreve aqui (aos efésios) é a de que consideremos a realidade que nos assalta, discernindo, mas, não pecando; isto é, não nos entregando a ira. Foi o que me aconteceu em um determinado dia quando assistia a um jogo de futebol na TV. Diante do que presenciava, julguei a realidade observada e entreguei-me à ira, baseado na convicção do certo em meu julgamento; logo, senti, agi e falei em tom nada santo; mas, convicto na vaidade de meus próprios pensamentos; o que conduziu à ignorância; impaciência, desamor e atos que promoveriam a dissolução para com o Senhor e demais pessoas. Imagino o Senhor olhando e dizendo: “Muito bem, pastorzinho; após este ataque de pecaminosidade, voltemos à realidade da santidade; recomponha-se e aja como homem de Deus”. Pela graça somos reconduzidos à santidade.

Como praticamos a santidade, adorando ao Senhor, quanto ao exercício do que falamos, como falamos e quando falamos? Em primeiro lugar, não mentindo; em segundo lugar, não nos entregando à ira.

Em terceiro lugar, contribuindo para edificação (29). O termo “torpe” significa podre, decadente; normalmente usado para indicar peixe, carne e vegetal estragados; figuradamente significando corrupto, imoral. “Unicamente para edificação, conforme a necessidade, transmitindo graça”. Todo aquele que é do Senhor não tem liberdade, autoridade, permissão para falar o que bem entender, da forma que bem entender, mas, somente, o que edificar, evitando todo sentimento e ação que, normalmente, estão associadas ao agir diabólico (31); assumindo sentimento e ação que revelam a Cristo, evidenciando nossa relação com Ele (32-5.2).

Tiago já ensinara sobre a incoerência da bênção e da maldição ser compartilhada pela mesma boca, pelo mesmo falar (Tiago 3.9-11). É óbvio que a razão desta incoerência está alicerçada na relação com Deus. Cada pessoa revela aquilo que lhe é próprio. Se, não possui relação com Deus não tem como revelar santidade (3.13-16); mas, se possui relação com Deus revelará Sua sabedoria, através dos relacionamentos (3.17).

Cuidado com o que você fala e como fala, pois, isto afeta as pessoas, e Deus é o Vingador. Cuidado com o que você fala no carro; à mesa de sua casa, cercado por sua família; ou em uma roda de irmãos; ou em seu trabalho; você pode ser instrumento usado pelo mal para influenciar pessoas, enquanto deveria ser instrumento de adoração ao Senhor, influenciando pessoas. Em qualquer momento e lugar, o que sai de nossa boca é analisado pelo Senhor e esperado como adoração. O Senhor espera que tudo o que sai de nossa boca o honre, levando outros à edificação.

Como praticamos a santidade, adorando ao Senhor, quanto ao exercício do que falamos, como falamos e quando falamos? Em primeiro lugar, não mentindo; em segundo lugar, não nos entregando à ira; finalmente, falando o que contribuirá para a edificação do próximo.

O seu falar é santo?

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