A Igreja e as “igrejas”

Carlos Moraes  »   Editorial | julho 2021

O texto mais importante sobre a Igreja são estas palavras de Jesus: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). A Igreja é de Cristo, Ele é sua Cabeça, e fez questão de afirmar que ela é vitoriosa.

Ser cristão sempre foi difícil.

No período de transição da antiga para a nova aliança, quando os primeiros membros da Igreja de Cristo, eram apenas judeus, a dificuldade se relacionava ao entendimento de que a Lei cumprida não era anulada pela Graça. Por mais que o Senhor tivesse ensinado sobre a sua missão e a nova dispensação, o grosso véu cultural do etnocentrismo e do legalismo, desenvolvido durante os quatro séculos de silêncio profético, entre Malaquias e João Batista, era difícil de ser removido. O próprio apóstolo Paulo, ex-praticante e conhecedor profundo daquela religiosidade, deixou claro aos crentes do início da era cristã, que toda a separação causada pelas leis judaicas havia sido derrubada por Cristo na sua ressurreição (Ef 2.11-22).

Por que havia essa barreira? Porque os mestres do judaísmo ensinavam que somente os judeus eram considerados o povo de Deus, por serem descendentes diretos de Abraão. Para eles, havia um exclusivismo da parte de Deus. Acreditavam que as promessas feitas a Abraão seriam cumpridas apenas para eles, mesmo estando claro que deveria abranger “todas as famílias da terra” (Gn 1.23). A bênção (Cristo), seria para todas as tribos, línguas e nações (Ap 7.9). Paulo mostrou que é incoerente um cristão discriminar alguém, por qualquer que seja a razão, pois, na Igreja “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus”. (Gl 3.28).

Atualmente o grande problema que enfrentamos é outro. Trata-se da multiplicidade de igrejas, não apenas locais, no sentido neotestamentário, mas denominacionais e doutrinários. Todas as pessoas salvas, fazem parte da Igreja, Corpo e Noiva de Cristo, mas Deus age no mundo através das congregações locais.

Ao longo da história, principalmente a partir do dia 13 de junho de 313 quando o Imperador Constantino publicou o Édito de Milão, vive-se o conflito entre Igreja instituição e Igreja Corpo de Cristo. Essa aceitação oficial do cristianismo, que trouxe afrouxamento na perseguição estatal, mas, também, relaxamento na compreensão do que era ser cristão. Dali, até o século 16, quando veio a Reforma protestante, a Igreja oficial foi se afastando das verdades neotestamentárias e pequenos movimentos independentes se espalhavam pelo mundo sempre perseguidos pela Igreja Imperial Romana, Ocidental e a Ortodoxa, Oriental.

A Reforma Protestante propiciou certo alívio contra as perseguições, mas as igrejas de origem reformadas não se desprenderam totalmente da dependência estatal, pois havia no movimento, interesses políticos e estatais na Alemanha, França, Suíça e Inglaterra, entre outros países. Por isso, muitos grupos dissidentes da era pré-reforma, continuaram independentes e perseguidos, tanto pelo catolicismo, quanto pelos grupos protestantes. O tema é extenso e não é o propósito discuti-lo aqui. Apenas registrar sua existência.

Chegando aos nossos dias, neste século 21, perdemos a capacidade de elencar o número de denominações e doutrinas cristãs espalhadas pelos cinco continentes. Estimativas conservadoras, apontam para mais de trinta mil denominações cristãs principias, espalhadas pelo mundo. Mas esse número, também não vem ao caso para o que tratamos neste texto. O que queremos é responder, de modo simples, a diferença entre a Igreja, no singular, e as igrejas, no plural.

No texto citado na abertura deste editorial, Mateus 16.18, Jesus está falando da sua Igreja, todos os salvos, de todos os tempos na dispensação da Graça. Porém, a partir do livro de Atos e, principalmente, nas cartas paulinas, o que mais vemos, é a indicação das igrejas em localidades, como, Jerusalém, Antioquia, Filipos, Tessalônica, Éfeso, Corinto, Roma, as igrejas da Galácia, a lá no Apocalipse, o próprio Cristo, ordenando a João, que escreva para as sete igrejas da Ásia.

Nenhum movimento humano ou organização neste mundo, é capaz de identificar a Igreja, Noiva de Cristo. Mas haverá um momento, no Kairós de Deus, em que todos os salvos, aqueles que foram lavados no sangue do Cordeiro, serão arrebatados, dentre estas mais de trinta mil denominações, e até fora delas, e serão levados à presença de Deus para estarem com ele eternamente. Maranata!

2 respostas para “A Igreja e as “igrejas””

  1. Maria Aparecida Duarte da Silva disse:

    Muito bom esse texto Pr Carlos, hoje em dia estamos vendo e ouvindo coisas absurdas,que não tem nada a ver com o verdadeiro Evangelho, sobre o grande maior de Deus por nós e o verdadeiro amor de Jesus nas pessoas que se dizem” Evangelicos”como a Igreja como pare do corpo de Cristo.

  2. Manoel disse:

    Gosto de história e em especial a história dos movimentos genuinamente cristãos através dos séculos e percebo na atualidade que mesmo entre os batistas mais tradicionais não há um conceito original do que significa igreja e igrejas. Penso que este é um tema que precisa ser melhor conceituado e praticado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *