A breve história de um casal que serviu na seara…

Redação JA  »  março 2021

Maria Auxiliadora, uma das onze filhas do cearense “Seu Messias” e de dona Almerinda, da etnia Macuxi, olhava admirada as montanhas e trilhas tão conhecidas, agora vistas do alto, como passageira do pequeno avião que a levava a aldeia de Napoleão. Igarapé Azul, onde a família vivia, era um local paradisíaco nas montanhas, sem acesso por estradas e isolado de tudo, no leste de Roraima, ainda um território Federal naquela época.

Auxiliadora ouvira falar de uma professora que estava na aldeia Macuxi de Napoleão (um posto de trabalho missionário da MEVA), ajudando Miriam, uma missionária americana, a aprender português. Seu sonho era aprender a ler e escrever. Aquela oportunidade não seria perdida! A menina tímida de 17 anos chegou à aldeia cansada. A professora Isabel Carvalho a recebeu com carinho, além de indígenas Macuxis que tinham o mesmo sonho. Ela tinha sede de conhecimento, por isso aprendeu a ler e escrever muito rapidamente e lia tudo que estivesse ao seu alcance, até mesmo as cartas pessoais da professora! Auxiliadora voltou para Igarapé Azul e alfabetizou todas as suas irmãs! Os programas transmitidos pela Rádio Transmundial na madrugada eram ouvidos avidamente. Os cursos e livros que acompanhavam os programas da rádio evangélica agora poderiam ser lidos e compreendidos por toda a família. A casa do “Seu Messias” e de dona Almerinda tornou-se um centro de propagação do evangelho entre indígenas Macuxis e Ingaricós, além de garimpeiros que buscavam riquezas na região.

Auxiliadora queria mais! Passados alguns anos, quando a missionária Miriam Abbott já era fluente em português e Macuxi, ela recebeu a ajuda de Jane Burns, missionária enfermeira, que logo começou a treinar Auxiliadora como agente de saúde. Suas irmãs, Vanda, Ivete, Rozinete, Imperatriz e Francisca também fizeram o curso.

Mas a Auxiladora ainda queria mais! Queria conhecer melhor a bíblia. Mas onde? E como? Onde conseguir recursos numa área tão isolada? Mais uma vez, tomou uma decisão. Comprou tecido e começou a fazer camisas simples que vendia aos garimpeiros que passavam por ali. Desse modo, conseguiu o dinheiro para a longa viagem até Araçatuba, no interior de São Paulo, onde fora aceita no IBE – Instituto Bíblico de Evangelização. Mais um passo em direção ao sonho que sempre teve no coração, preparar-se para ser missionária e servir ao Senhor pregando o evangelho naquela região tão isolada, como Isabel, Miriam e Jane, com quem aprendera tanto.

Auxiliadora completou o curso, casou-se com José Carlos, colega do curso em Araçatuba. Ele havia se convertido aos 16 anos mais ou menos e pouco depois ingressara no instituto bíblico. Para ajudar a pagar sua mensalidade, José Carlos trabalhou bastante nas construções do seminário e da Primeira Igreja Bíblica de Araçatuba.

Ambos foram aceitos como missionários da MEVA em 1986. Como fruto desse exemplo, mais quatro irmãs estudaram no IBE. José Carlos e Auxiliadora auxiliaram na formação de igrejas e participaram da primeira escola bíblica exclusiva para indígenas na região, chamado Projeto Betel. Muitos grupos de estudos bíblicos foram iniciados e mantidos pelo casal. Suas irmãs também continuaram a servir o Senhor como missionárias da MEVA, da Igreja Batista Regular ou cooperando com essas missões em projetos temporários.

Como termina essa breve história? Ela termina muito bem. José Carlos e Auxiliadora cumpriram seu chamado e ministério até o fim, pois Deus os chamou para si com apenas quatro dias de diferença, vitimados pela Covid-19, trazendo profunda tristeza a todos os seus familiares e colegas de ministério, mas com o consolo da certeza da vida eterna em Cristo Jesus.

Fica também o testemunho do poder do evangelho, capaz de alcançar e transformar vidas nos rincões mais distantes do nosso país, o que nos motiva a continuar a pregação dessa mensagem transformadora aos povos que ainda vivem isolados no nosso Brasil.

“…em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus. ” (At 20.24)

Milton Camargo Vice-presidente da MEVA

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